Sobre livros, pessoas e histórias

Ontem visitei um sebo, depois de vasculhadas as estantes e já no caixa, a livreira aponta para a capa do que escolhi e diz ser esse um autor incomum ali, difícil de encontrar. Concordo e digo ainda achar estranho, por ser esse autor incomum e por ser de uma coleção recente:

“Como alguém se desfaz assim, tão rápido do livro? Fico por entender.” Vejam, não é um romance, um livro que se compra na esperança de ter uma experiência prazerosa e que falha em sua missão e então é deixado de lado, vendido. É um livro bem específico, e imagino que quem compre, como eu comprei, espera ficar com ele, ler e reler, revisitá-lo diversas vezes — que é uma experiência comum para estudiosos da área sobre a qual livro fala: psicanálise.

E ela então continua e me conta ter sido de um homem falecido recentemente. Família vendeu todo o seu acervo. Ok. Há então a compreensão compartilhada em nossos olhares desse porquê, marcado pela morte, que encerra minha dúvida. “É, nesse caso…”

Pergunto já dizendo imaginar ser bem comum essa dinâmica de venda de acervo após falecimentos, a compra de grandes coleções e volumes e a impossibilidade e talvez uma recusa mesmo de manter os livros, pois interesses distintos entre pais e filhos.

Então ela me relata uma história recente, de um senhor de 83 anos que ela visitou há pouco. Ele quis vender todo o seu acervo. Motivo: “Passei grande parte da minha vida construindo essa biblioteca para os meus filhos, imaginava que poderia deixar isso pra eles, que seria bom.”

Decidiu vender por se dar conta de que durante todo esse tempo eles nem sequer entraram ali, nunca ligaram, se interessaram. Todos já adultos e com a vida feita e criados, decide vender e aproveitar o dinheiro enquanto pode. Achei uma bela e sábia decisão.

Conto essa história para registrar e me lembrar e dizer o quanto eu gosto de sebos, de livros que contam histórias para além da história já contada nos livros. Pessoas, famílias, vidas e mortes carregadas nas páginas impressas das edições de segunda mão.

Meu livro por exemplo: a assinatura na folha de rosto e a data recente; marcações e comentários, a interrupção destes. Vestígios de alguém que se foi e não pode, imagino, terminar essa leitura. Além da presença do autor, há essa outra presença, de alguém que já esteve aqui e compartilha sua leitura comigo.