Dois fragmentos: 

1 – O ano é incerto e é possível ver três homens na calçada à frente ao Posto de Benefício do I.N.P.S da Praça Onze no Rio de Janeiro. O fragmento de uma robusta coluna de concreto sugere que o prédio onde o posto se localiza é gigantesco.  Há três grandes portas, com janelas basculantes acima de cada uma delas, a do meio sustenta uma placa indicativa do local. Um pouco mais acima nota-se também três janelas gigantescas abertas, possivelmente as janelas do primeiro andar, grandes janelas abertas. Não há ninguém nessas janelas. Apenas uma das três portas dá acesso ao posto, as outras duas são fechadas por uma tela, apesar das portas, dessas de aço, de enrolar, estarem levantadas. Três homens estão na calçada à frente ao Posto de Benefício do I.N.P.S da Praça Onze no Rio de Janeiro e agora suspeito serem quatro, mas não consigo distinguir se é um quarto homem ou apenas um cobertor. Dois desses três homens estão sentados e conversam, enquanto o terceiro, meio sentado, meio deitado, aparenta estar dormindo, está sem camisa e veste apenas uma calça e sapatos. Sua cabeça está apoiada na quina da lateral esquerda da porta central do posto. Atrás deste homem é possível ver um objeto similar à uma garrafa, dessas térmicas de café, branca. Um dos dois homens que conversam está vestindo uma camiseta com uma estampa que não posso identificar, e sob esta camiseta veste uma blusa de manga comprida clara. Veste ainda uma calça de brim escura aparentando ser um pouco curta para ele, pois vejo suas canelas e noto também que ele está sem meias, apesar de estar calçando um sapato, um mocassim. Seu interlocutor, sentado em posição de lótus, veste um casaco elegante e também uma camiseta clara e uma calça que também não posso identificar pelo ângulo de onde os vejo. As pernas daquele que dorme encostado não me permitem visualizar de modo adequado. Os dois homens seguem conversando. O primeiro homem olha com atenção para o segundo, o escuta com interesse, seus braços circulam os próprios joelhos, presos pela mão esquerda que segura a direita, criando uma postura que indica tensão e conforto. O segundo homem que senta em posição de lótus fala com entusiasmo, gesticula e sua mão esquerda faz um movimento que indica rotação, como quem explica ao outro como trocar uma lâmpada. O tempo e mais ninguém passa por ali. Seguem vazias as janelas acima dos basculantes acima das portas abertas e os balcões, com divisórias com cores alternadas. O terceiro homem dorme, o segundo sentado, escuta o primeiro que gira a mão esquerda, para à direita, como quem explica ao outro como trocar uma lâmpada.

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2 – Um homem ferido é retirado às pressas de uma Kombi e colocado em uma maca. Das dezenas de pessoas que acompanham este acontecimento, apenas uma delas, uma mulher, 40 e poucos anos, de cabelos loiros e curtos, apesar de presente no meio da multidão, olha com calma para um ponto distante, na direção contrária, como se não estivesse ali, como se sentisse nesse ponto distante em si mesma uma cena similar, uma lembrança, talvez a lembrança do atropelamento de alguém querido, um momento em que talvez passasse perto do supermercado acompanhada, em um dia qualquer no começo da noite e ouvido o estalo da batida do carro, os gritos, desespero, multidão crescente, a imagem da perna esquerda quebrada, ossos à mostra, sangue, medo, homens carregando o corpo até a carroceria de uma picape para ser levado ao hospital na mesma cidade onde cresceu e ainda vive, talvez na sequência da lembrança a lembrança de uma passagem de um livro, onde o autor descreve um acontecimento similar, não do atropelamento, não o do corpo outro sendo carregado ferido, mas o próprio corpo tocado pelo acontecimento, ferido, sentido, sendo, e  carregado para outro ponto do tempo e vê, para além do livro, a cena descrita pelo autor, o vê na ponte da metrópole, do grupo de amigos dos quais ele se separa para sentir a mesma experiência, os ‘momentos fecundos’ do autor francês a que ele se refere, e ela lembra, e lembra da lembrança desse autor, imersa em camadas de lembranças se sensações, vê a ponte da metrópole, a ponte da infância desse autor e lembra da frase do ensaio “Era a mesma sensação de desaprumo que se achava reproduzida”. Talvez.

 

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