Todos os dias um homem lê

Todos os dias um homem se senta e passa algumas horas da manhã lendo em frente ao Terminal Vila Madalena. Lê jornais, livros, folhetos, mãos, as folhas das árvores, pombos. Com cuidado, ajeita os óculos para ler melhor, se ajeita na grama, no meio fio da praça, dentro do canteiro, na grama à sombra. Alheio ao mundo, ele lê. Ignora o trânsito, os pedestres, passageiros de ônibus e metrô. Ele se perde num fluxo ininterrupto, não joga esse jogo, joga outro, o dele, suas regras, seu tempo. Talvez ler seja um pouco como escrever, que é o costurar uma ferida, abrindo uma nova; sair de si para, como se diz, encontrar-se nas frinchas da realidade: feridas que pulsam, abrem e fecham, jorrando o sangue o pus e o gozo que são a vida em si. Talvez esse homem, ao ler, se perca e se encontre um pouco. Eu o encontro todos os dias e pouco depois, o perco de novo.