O Vazio

Em 1891 um autor não identificado teve o seu conto, originalmente escrito em francês, traduzido e publicado em uma coletânea de contos em língua inglesa chamada “Contos, vol. 6”. Não há também nenhuma menção ao tradutor do conto.

O vazio

As horas sucedem as horas e eu sigo em sonho, desço das dunas para os vales e então volto às dunas para mais uma vez descer, e avanço. Orgulhoso da minha força e coragem, desafio a terra, o sol, a sede e até mesmo a morte. O sol se enfraquece em cores brilhantes sobre a terra. Caminho na imensidão de uma planície que se estende árida e tingida pela luz crepuscular, entre vastos e infinitos horizontes de silêncio e solidão. Eu paro com o coração alvejado. Nada atenua a solidão, nem uma folha ou nuvem, nem mesmo o ar que passeia em meus pulmões a cada respiração. Muito menos o movimento da terra e do céu na assustadora imobilidade do espaço. Neste silêncio absolutamente aterrador eu ouço minhas artérias vibrando em batidas apressadas; é o som da minha própria vida que perturba o vazio, o labor da minha carne que blasfema o universo; agora o medo, abjeto e hediondo, rói minhas vísceras. Meu sangue salta veloz e seu ritmo metálico me ensurdece, perturba, enlouquece. Sinto a morte se aproximar, uma morte covarde vinda do medo. Eu, esmagado sobre o silêncio monstruoso e palpitante do vazio inescapável sinto a vida escapar de mim. Do fundo das minhas entranhas eu clamo, imploro por ajuda, algo que possa quebrar esse silêncio mortal em mim. Um pássaro, uma rajada de vento, um trovão, qualquer coisa que impeça que eu me perca no vazio. Subitamente surge no ar um som. Intangível. Ouço ansioso. O som aumenta. Parece uma música, cada vez mais forte e próxima. É uma mosca! Apenas um inseto, mas suas pequenas e frágeis asas preenchem com o seu zumzumzum e sua vida essas imensas planícies devastadas com o nada. Se aproxima, sobrevoa o meu braço. Latejante de angústia e segurando minha respiração, eu levanto vagarosamente minha mão. Agora é minha prisioneira. Pequena refém, vibra entre meus dedos. O som de sua vida conquista o silêncio e a solidão. Eu não estou mais sozinho. Eu agora estou salvo.

(em W ou o silêncio das narrativas esquecidas)