[…]o silêncio que nem sequer é silêncio, que não é absolutamente nada.

Albert Camus por Jean Paul Sartre; texto publicado* na revista cubana Lunes de Revolucion em 18 de janeiro de 1960, 12 dias após a morte de Camus em um acidente de carro. 

S eis meses se passaram, e ainda assim, ontem, a pergunta foi colocada: o que fará Camus? Desolado por contradições dignas de respeito, ele escolheu o silêncio. Era desses homens incomuns, que esperam, pois escolhem com lentidão e permanecem fiéis a sua escolha. É certo que falaria em algum momento. Não nos atreveríamos a adiantar uma conjectura sobre o que poderia ser dito. Pensávamos que mudava como o mundo, como todos nós e isso bastava para que sua presença continuasse viva.

Camus e eu estávamos distantes, mas um distanciamento não é – não obstante o fato de decidirmos não nos ver definitivamente  – mais que outra maneira de viver “juntos”, e sem perder de vista o mundo estreito e pequeno que nos foi dado. Nossa separação não me impedia de pensar nele, sentir o seu olhar sobre a página do livro, sobre o jornal que deveria estar lendo e e me perguntar: o que diz disto? O que diz neste momento?

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Seu silêncio, que – de acordo com os acontecimentos e meu estado de espírito – eu julguei prudente ou doloroso, se converteu em uma qualidade cotidiana, como o calor ou a luz do sol, mas era uma qualidade humana. Vivíamos com ou contra seu pensamento, tal como nos revelavam seus livros – sobretudo “A Queda”, por acaso o mais belo e menos compreendido -, mas sempre através de suas ideias. O pensamento de Camus era uma singular aventura da nossa cultura, um movimento cujas fases e término tentávamos adivinhar.

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Era neste século e contra a História, o herdeiro de uma larga série de moralistas cujas obras constituíram o que de mais original surgiu nas letras francesas. Seu humanismo tenaz, estreito e puro, sensual e austero, livrara um incerto combate contra os acontecimentos multitudinários e disformes do nosso tempo. No entanto, pelo contrário, pela obstinação de suas negações, reafirmava –  no coração de nossa época – o feito moral contra os maquiavelistas e o bezerro de ouro do realismo.

Camus “era”, por assim dizer, essa inquebrantável afirmação. Pelo pouco que dele lemos e refletimos, nos enfrentamos com os valores humanos que guardava com seu punho cerrado: colocava em causa o ato político. Era necessário compreender-lo ou combater-lo, pois era indispensável para a tensão que se constitui a vida do espírito. Seu silêncio dos últimos anos tinha um aspecto positivo: cartesiano do absurdo, se negava a abandonar o seguro terreno da moralidade para empreender os incertos caminhos da prática. Adivinhávamos estas negativas e os conflitos que ela ocultava: pois a moral, tomada isoladamente, exige a rebeldia e a condena ao mesmo tempo.

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Esperávamos, devíamos esperar, era necessário saber: quaisquer fossem suas ações e decisões, Camus nunca havia desejado ser uma das principais forças do nosso campo cultural, nem de representar a sua maneira a história da França neste século.Talvez nós tivéssemos conhecido e entendido seu itinerário. Havia feito tudo – toda uma obra – e, como sempre, tudo estava por fazer. Ele dizia: “minha obra está diante de mim”. Agora, tudo está terminado. O escândalo peculiar de sua morte é a abolição da ordem humana pelo desumano.

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A ordem humana não é mais que outra forma de desordem, injusta, precária, em que se mata e se morre de fome; todavia, pelo menos, é fundada, mantida e combatida pelos homens. Camus deve ter vivido nessa ordem; era um homem que nos colocava em causa, era em si mesmo uma pergunta em busca de reposta; vivia uma vida grande; para nós, para ele, para os homens que reinam a ordem e para os que a rechaçam era importante que Camus saísse de seu silêncio, decidido e definitivo. Uns morrem velhos, outros – sempre preparados – podem morrer a qualquer momento sem que se mude o sentido de suas vidas, e da vida. Mas para nós, inseguros, desorientados, é necessário que nossos melhores homens cheguem ao final do túnel. Poucas vezes os caracteres de uma obra e as condições de seu momento histórico exigiram tão claramente que um escritor continuasse vivo.

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Chamo de escândalo o acidente que matou Camus, porque revela, no coração do mundo humano, o absurdo das nossas mais profundas exigências. Aos vinte anos, subitamente atacado por uma enfermidade, que transformaria sua vida, Camus descobriu o absurdo – a imbecil negação do homem. Se adaptou a ela, meditou sobre sua insuportável situação e se livrou do mal. Porém, podemos acreditar que somente suas primeiras obras declaram a verdade de sua vida, pois este enfermo, agora curado, foi destroçado por uma morte imprevisível, vinda desde fora. Absurdas são as perguntas que ninguém o faz, e que ele não faz a ninguém, o silêncio que nem sequer é silêncio, que não é absolutamente nada.

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Não acredito nisso. Desde o momento em que se manifesta, o desumano passa a fazer parte do humano. Toda a vida que se detém – ainda que a de um homem tão jovem como Camus – é ao mesmo tempo um disco que se quebra e uma vida inteira. Para todos que o quiseram, sua morte contém em si um absurdo insuportável. Temos que apreender a sua obra mutilada como uma obra total. Na mesma medida que o humanismo de Camus contém uma atitude humana para a morte que o surpreenderia, na medida em que sua busca orgulhosa e pura da felicidade implica uma necessidade desumana de morrer, reconheceremos em sua obra – e na vida que é inseparável dela – a pura e vitoriosa tentativa de reconquistar cada instante da sua existência contra a sua morte futura.

*Traduzido do espanhol por Gabriel Andrade.