A melancolia do ouriço

Sobre a doce tristeza dos encontros turcos e animações soviéticas

Por Aysegul Savas*
 

Quando eu tinha oito anos de idade e meu irmão nove, nos mudamos de Ankara para Londres, onde aguardávamos a vinda do nosso pai, que na época ainda trabalhava em Copenhague. Ambos com 33 anos e sem renda fixa, nossos pais eram extremamente criativos com dinheiro. Aquele foi o ano das entradas grátis em museus e passeios por estações de metrô pagando apenas um bilhete, caixas e mais caixas de roupas enviadas pra gente por nossos avós. Quando ficávamos entediados com os poucos brinquedos que trouxemos da Turquia, meu irmão e eu criávamos bonecos com folhas de jornal, usando cola para grudar seus pequenos braços e pernas.

Foi um ano bem estranho. A casa onde vivíamos tinha uma lareira de mentira e era vizinha a um cemitério. Nossos pais fizeram amizade com um grupo de jovens turcos – estudantes, médicos, um rapaz que era bilheteiro em um cinema – e se encontravam com eles para noites de fasıl. Alguém tocava o alaúde e os outros cantavam juntos com o auxílio de um pequeno livro preto chamado “Ah, Those Beautiful Songs“. Um fasıl é uma reunião para cantar clássicas músicas turcas em maqams, uma escala melódica tradicional árabe. É um evento social cujo objetivo é um tipo de expurgo coletivo da tristeza.

A minha queixa é para ninguém, eu choro com o que eu me tornei
Eu tremo, como um criminoso, em meu destino.

Um tema recorrente nas canções do fasil são as desilusões amorosas e encontros impossíveis. Suas paisagens são as horas sombrias e empoeiradas e à luz do luar, quando os barqueiros se enfileiram solitários e amantes aguardam com minguante esperança.

Todo dia eu espero, abatido nessas praias.
O dia se põe, os pássaros retornam…

Essas canções são também sobre a escassez do tempo. Muitos são poemas otomanos musicados, especialmente aqueles de Yahya Kemal Beyatlı, cujos versos sombrios se encaixam perfeitamente na similar atmosfera do fasıl: “Estamos no horizonte de uma noite sem retorno…”

Em minha infância, vendo os adultos subitamente desolados e cantando cabisbaixos, eu me perguntava quais eram os grandes infortúnios que haviam se abatido sobre eles. Fasıl tinha essa característica de abrir uma porta – de colocar para fora a tristeza em cada um. Até mesmo meus tios-avós, que se costumavam se portar de maneira pétrea nas ocasiões mais felizes, cantavam:

Você é uma rosa no meu coração, murcha sem florescer
Sempre sou miserável, sempre repleto de tristeza.

As crianças não participavam dos cantos, apesar de eventualmente nos presentearem com alguma canção mais animada: “Oh, rouxinol, belo pássaro, onde está você agora?” Mas essas eram exceções e não pertenciam ao ritual, cujo propósito era mergulhar nas águas abissais da melancolia.

*
A palavra fasıl vem do árabe fasl e significa episódio, seção, quebra, ou interlúdio. É algo à parte, bem como a reunião musical, é um período contido em si – uma passagem na direção de uma emoção geralmente mantida sob controle. É também um episódio de meditação e demanda que os participantes estejam presentes frente ao surgimento desta emoção. Fasıl permite que o pesar se manifeste, não como uma patologia ou algo do qual procuramos fugir por causa do desconforto, mas como um ritual de intimidade.

Um dos mais conhecidos cantores turcos, cujas canções e interpretações geralmente fazem parte dos fasıl, é Zeki Müren, carinhosamente conhecido como Pasha. Durante sua vida, Müren foi admirado por todos. Sua morte em 1996, durante um show ao vivo na tevê, foi uma tragédia nacional. Os adultos falavam sobre o poder da voz de Müren e a beleza de suas atuações, do seu amor e respeito pelos fãs. Ao final de suas performances, ele se curvava e agradecia ao público diversas vezes e desejava sempre “o melhor” para todos. Em entrevistas, falava de forma tímida, quase que se desculpando. Parecia estar sempre pedindo por perdão mesmo sendo uma das maiores celebridades do país.

Mas para as crianças a coisa mais marcante sobre Müren era a sua aparência. Ele pintava as pálpebras e fazia as unhas e as sobrancelhas. Usava salto-alto e fantasias brilhantes roxas e douradas, jóias gigantes ornavam seu pescoço e suas mãos. Ficávamos perplexos diante da singularidade de seu ser – e pelo fato de ele se permitir ser assim.

Sempre que a aparência de Müren era colocada em pauta os adultos diziam que essa era a sua natureza. “Ele foi criado assim”, minha avó dizia, sem entrar em detalhes. Seu visual era citado de maneira vaga e com um embaraço hesitante, quase como um tabu. Eu sentia que Müren era blindado de um assunto que em outro contexto seria indesejável. Deveríamos apenas deixá-lo ser assim, por nutrirmos certa ternura por ele, e talvez mais ainda por ele encarnar tudo aquilo que evitávamos. Müren era como o interlúdio do fasıl, abria espaço para uma outra forma de ser que, ainda que fosse nebulosa, cabia dentro das rígidas regras da sociedade.

*

Com o tempo, o fasıl se tornava cada vez menos frequente em minha família. Os encontros passaram a ser ditados pelas preferências das gerações mais jovens e os antigos cantores de fasıl se contentavam com uma ou duas canções tristes. Agora, quando me encontro com amigos em Istambul, vamos para os bares próximos a Beyoğlu, onde o prazer do canto entre amigos se transformou em uma indústria. Clarinetes, violinos e darbukas circulam pelas mesas pegando gorjetas e pedidos, e então a noite se transforma em um transbordamento de emoções. Estas têm pouca semelhança com os sutis tons de melancolia dos fasıls dos mais velhos. Parecem mais com uma torcida em um jogo de futebol do que com a mágoa vagarosa e constante e sua paciente submissão às trevas.

O que é estranho para nós jovens não é necessariamente a tristeza – nós também bradamos juntos músicas sobre corações partidos em bares barulhentos – mas sim a morosidade. Nos tradicionais fasıls, uma única palavra é cantada ao longo de vários segundos; um verso com três delas pode levar minutos; refrões são repetidos incessantemente. Nessa velocidade, eles dificilmente parecem melodias, e sim um gemido prolongado. Sua forma só pode ser percebida por uma sensibilidade apurada, dificilmente alcançada em um mundo de cores saturadas e atenções que duram frações de segundo.

Aquele ano dos encontros de fasıl em Londres foram nos anos noventa. Foi também a época das camisetas do Pato Donald, do Ace of Base, piadas idiotas e cortes de cabelo esquisitos, filmes onde crianças com bonés de beisebol e skates tinham vários bichos de estimação – universos ficcionais de uma felicidade fugaz. Mas para mim, essas imagens deslumbrantes foram sobrepostas nessa experiência de infância, que foi conquistada e colorida com a tristeza.

Minha memória da infância é uma névoa, não porque eu não lembre dela, mas por sentí-la como uma mistura de sussurros desafinados, uma luz que atravessa a brecha em uma cortina durante a tarde, provocando uma dança de partículas de poeira. Nos filmes e nos desenhos animados, essa névoa interior foi arrancada – como se pudéssemos ser infectados por nossas próprias mentes – e em seu lugar foi colocada uma alegria imaculada.

Mas nos desenhos animados soviéticos, produzidos pela Soyuzmultfilm, um estúdio de animação com artistas estatais, a melancolia está presente por toda a parte. A falta de preocupação comercial é evidente nas narrativas incertas e com um largo espectro de emoções sutis. Em sua inocência, surpresas e cores suaves, esses desenhos são ao mesmo tempo nostalgia da infância e uma expressão mesma dessa infância.

Talvez o mais famoso deles sejam as aventuras de Cheburaska, uma mistura de filhote de urso e macaco; com os olhos tristes, Cheburaska canta que um dia ele foi um brinquedo sem nome e que ninguém sequer olhava para ele. “No começo as coisas não deram muito certo pra mim,” diz, “e é bem possível que ninguém tenha me dado parabéns no meu aniversário.”

Então, Cheburaska se torna amigo do crocodilo Gena e os dois fazem uma viagem sentados em um trem azul. Eles têm a aparência de órfãos, esperançosos e desamparados, temerosos de que a felicidade seja tirada deles. Eles, também, cantam sobre a passagem do tempo:

Lentamente os minutos avançam distantes,
Não espere encontrá-los novamente.
E mesmo que estejamos um pouco tristes pelo passado
O melhor, claro, ainda está pela frente.

As vozes que cantam e falam nos desenhos animados soviéticos não são muito diferentes das de Zezi Müren – com uma quietude gentil e uma graciosa resignação elas podem partir seu coração. As histórias que contam não tratam a tristeza como uma vilã que deve ser derrotada e mandada para o exílio; eles concedem a ela uma beleza única e cheia de alma. Ao invés de tirarem os espectadores do lusco-fusco da infância, esses desenhos – muito diferentes daqueles com os quais eu cresci – os acompanhavam em suas névoas particulares.

Em um ensaio de 1933 chamado “In praise of Shadows” [Em Louvor da Sombra, disponível na estante virtual], o escritor japonês Junichiro Tanizaki lamenta que uma tradicional estética da obscuridade tenha perdido espaço para os deslumbres luminosos dos avanços da modernidade. O ensaio é uma ode ao silencioso, ao sombrio e ao turvo, desaparecidos para darem lugar ao brilho e a clareza.

Como o tradicional e ritmado fasıl, Tanizaki escreve que a música japonesa é “acima de tudo uma música de reticência…mais importante que tudo, são as pausas.” Mas essa atmosfera se torna fria com os rádios e gramofones. Dessa forma também, a atmosfera tradicional dos lares japoneses foi perdida com a chegada da luz elétrica. Ele escreve ainda que essas sombras devem pelo menos serem preservadas na arte. “Na mansão chamada Literatura eu terei beirais profundos e murais escuros, trarei de volta as sombras das coisas que se tornaram claras demais e arrancarei as decorações inúteis. Eu não digo que isto deva ser feito em todos os lugares, mas talvez pudesse nos ser permitido pelo menos um lugar onde possamos desligar a luz elétrica e ver como ela fica sem isso.”

Uma obra-prima da animação infantil russa é “Hedgehog in the Fog” de Yuri Norstein, de 1975. Norstein é conhecido como o Golden Snail [Lesma Dourada], pela dolorosa lentidão com que produz seus trabalhos – anos e anos para alguns minutos de filme. Norstein trabalha no território dos sonhos e da memória, de imagens familiares que se expandem em jornadas existenciais, numa paleta outonal onde prevalecem sombras às cores.

Nesta animação, um ouriço sai em sua cotidiana caminhada noturna para visitar seu amigo urso. Os dois se sentarão em um tronco para contar as estrelas, tomar chá e comer geléia de amora. No caminho, o ouriço vê um grande e resplandecente cavalo branco surgindo na névoa. Curioso, ele dá um passo em direção à névoa, e então outro, e antes que perceba perde completamente seu caminho e é assaltado por formas que surgem e desaparecem em fragmentos na floresta. Uma coruja, de início apenas brincalhona, se torna assustadora. Morcegos sobrevoam-no aos gritos. Talvez essas coisas sejam apenas as manifestações concretas das vozes internas do pequeno ouriço.

STILL FROM HEDGEHOG IN THE FOG.

Ele é então ajudado por estranhos – um cão recupera sua matula, um vagalume ilumina seu caminho – mas ninguém pode efetivamente devolvê-lo à segurança. Um momento de iluminação surge logo de início, quando ele tropeça num tronco de árvore, olha para o alto e vê seus galhos magníficos. Por um instante, tudo fica claro. Essa não é uma história usual ou uma narrativa triunfante. Se parece mais com uma jornada espiritual, na qual a iluminação pode ocorrer cedo, mas nos jogará nas profundezas da escuridão.

Exausto, o ouriço finalmente se entrega ao fluxo dos acontecimentos. Ele ouve a voz de seu amigo urso o chamando, mas não reage a ela. ‘Estou totalmente encharcado’, diz calmamente, ‘…vou afundar logo’. Não há nada nesta cena que se deva esconder de uma criança, mesmo que ela seja repleta de aflição. Nós torcemos para o ouriço se manter firme e lutar por sua vida. Em vez disso, ele, de forma serena, se desapega do desejo de continuar vivo. Por um instante, ele vê a face do cavalo branco olhando do alto para ele.

E é só então, quando o ouriço finalmente se liberta completamente, que um oculto ‘Alguém’ o ergue das profundezas e o carrega até a margem. A esperança está sempre presente e sempre um passo à frente; ela não surge cintilante, como geralmente se espera. Está atrelada ao ato de acolher e dar voz ao seu sofrimento. É criada a partir das sombras e do conforto que há em reconhecê-las.

Ao final de “Hedgehog in the Fog”, os dois amigos se sentam lado a lado mais uma vez, olhando para as estrelas. O urso está sem fôlego, dominado pela preocupação com o seu amigo. Conta ter chamado e chamado pelo ouriço. Diz que já havia colocado o samovar no fogo, aceso com os gravetos de junípero.

O ouriço senta ao lado do amigo, sua face diminuta maculada com assombro. Fica claro que nada será da mesma forma – alheio, ele observa com distanciamento as preocupações simplórias de seu amigo. Mas ele pensa, mesmo assim, no quão maravilhoso é estarem juntos novamente. E então ele se lembra do cavalo branco, surgindo na névoa, olhando para ele.

“Como será que ela está”, ele pensa, “lá fora, na névoa?”

Texto original publicado em 20 de julho de 2018 na seção Arts&Culture da The Paris Review.

Traduzido por Gabriel Andrade com a autorização da autora. Revisão de Luiza Gianesella.

*Aysegul Savas é escritora e vive em Paris. Seu primeiro romance “Walking on the Ceiling” será lançado em breve pela Riverhead Books.