Badeshi vive enquanto vivem estes três homens

Na província de Khyber Pakhtunkwa, nas profundezas das montanhas do norte do Paquistão em um remoto e vasto vale velado de neve chamado Bishigram falava-se Badeshi. Para além do vale de Bishigram, falava-se Badeshi também por pequenos grupos em Pooran Chakesar, Swat e nos vales de Tirat, conhecidos na região como Alais. Fala-se atualmente que Badeshi é uma língua considerada em extinção. Há ainda três homens em Bishigram capazes de se comunicar em Badeshi. Rahim Gul, que já não se lembra que idade tem, é um deles. Rahim nos diz em Pashto que “Badeshi era falada por todos na vila. Depois que buscamos as mulheres de outras vilas (para casamento), falantes de Torwali, língua dominante na região, as crianças então passaram a aprender a falar na língua das mães e foi por isso que Badeshi começou a morrer.” Said, primo primeiro de Rahim, atravessa a conversa também em Pashto “Se nossas crianças e as crianças deles falam Torwali, quem vai falar na nossa língua com eles?” Said também não se lembra da própria idade. Quando diz que tem 40 alguém o corrige “tá mais para 80!” ao que ele rebate “Não! 50, talvez, mas 80, não!”

Não há trabalhos na região e os três homens passam grande parte do tempo nas calçadas do distrito de Swat, onde se comunicam em Pashto. Com o desuso da língua Badeshi ao longo das últimas décadas,  até mesmo esses três homens começaram a esquecê-la. Enquanto falam entre si, Said e Rahim frequentemente perdem uma ou duas palavras, que só encontram novamente após aguilhoar algum dos outros. Rahim tem um filho que tem cinco filhos e todos eles falam Torwali. “Minha mãe falava Torwali. Não se falava Badeshi na nossa casa. Eu não aprendi Badeshi na infância. Sei algumas palavras, mas não sei a língua. Todos os meus filhos falam Torwali. Eu me arrependo. Tenho 32 anos e não há mais possibilidade de aprender Badeshi. Eu estou muito triste em saber que Badeshi morrerá com meu pai.”

O linguista Sagar Zaman, membro da FLI (Forum for Language Initiative), uma organização não-governamental dedicada à promoção e preservação de línguas em vias de extinção no Paquistão, visitou várias vezes o vale e reclama que os moradores locais se recusam a falar em sua presença. Zaman diz que os falantes de Torwali e Pashto olham para Badeshi com desdém, há uma estigma atrelado aos falantes de Badeshi. É muito tarde para salvarmos Badeshi, mas pelo menos, podemos aprender algumas palavras para manter a memória da língua ainda viva.

Você pode ouví-las no vídeo abaixo.