La dirección de la mirada | Julio Cortázar

Tradução livre para o português a partir do texto original em espanhol “La dirección de la mirada”, de Julio Cortázar, publicado em 1979 na edição n.76 da revista literária francesa L’arc.


O sentido do olhar

Julio Cortázar.

Ilion, as campinas toscanas ao término de Guelfos e Gibelinos, as terras dinamarquesas na região de Brabante encharcadas de sangue: cenário móvel como a luz que corre sobre a batalha entre duas nuvens negras, desnudando e cobrindo regimentos e retaguardas, encontros cara a cara com punhais e alabardas, visão anamórfica dada aos que aceitam o delírio e buscam nos contornos da batalha seu ângulo mais agudo, um coágulo em meio à fumaça e debandadas e estandartes.
*
Uma batalha é o desperdício usual que excede os sentidos e narrativas futuras. Quantos viram o herói em seu apogeu, cercado por inimigos carmesins? Máquina eficaz de Aedo ou Bardo: lentamente, escolher e narrar. Também o é o que escuta e lê na tentativa de reduzir a vertigem. Como aquele que arranca da multidão o rosto que tornará sua vida um enigma; a escolha de Charlotte Corday diante do corpo nu de Marat, um peito, um ventre, uma garganta. Entre incêndios e contraordens, no redemoinho de estandartes que fogem ou a aglomerada infantaria dos Aqueos avançando contra o fundo angustiante das muralhas ainda invictas: o olho na roleta enclausurando a bola em um número que fundirá trinta e cinco esperanças no nada para exaltar uma sorte vermelha ou negra.
*
Inscrito em um cenário instantâneo, o herói, em câmera lenta, retira a espada de um corpo ainda suspendo no ar e olha com desdém sua decadência ensangüentada. Cobrindo-se frente aos que o atacam, o escudo lança em seu rosto estilhaços de luz, a vibração das mãos faz tremer as imagens de bronze. O atacarão, é certo, porém deixarão de ver que ele lhes mostra um último desafio. Deslumbrados (o escudo, lente convergente, os queima em uma fogueira de imagens exasperadas pelo reflexo do crepúsculo e dos incêndios), dificilmente conseguem separar os relevos de bronze e os fantasmas efêmeros da batalha.
*
Em sua frágua, o ferreiro buscou representar na massa dourada, batendo o metal e permitindo-se o jogo concêntrico de forjar um escudo que levante sua pálpebra combalida para mostrar entre tantas figuras (está mostrando agora quem morre ou mata na absurda contradição da batalha) o corpo desnudo do herói na clareira da selva, abraçando uma mulher que mergulha os dedos em seus cabelos como quem acaricia ou rechaça. Justapostos os corpos na luta que a cena envolve com uma lenta respiração entre arbustos (um cervo entre duas árvores, um pássaro que sobrevoa agitado as cabeças) as linhas de força pareciam concentrar-se no espelho que guarda a outra mão da mulher e em que seus olhos, não querendo ver quem a deflora entre cinzas e samambaias, vão buscar desesperados a imagem que um rápido movimento orienta e precisa.
*
Ajoelhado junto à uma nascente, o adolescente removeu seu capacete e seus cachos escuros caem sobre os ombros. Ele já bebeu e tem os lábios molhados, um pequeno buço de água; a lança fica ao lado, descansando da longa jornada. Novo Narciso, o adolescente olha para si a seus pés com uma clareza tremenda, alguém dirá que ele só pode ver sua memória apaixonada, a imagem inatingível de uma mulher em longínqua contemplação.
*
É mais uma vez ela e não mais seu corpo pueril, entrelaçado com o que a abre e penetra, mas graciosamente exposto à luz de uma janela do anoitecer, virou quase de perfil em direção a uma pintura de cavalete que o último sol lambe com laranja e âmbar. Diria que seus olhos só alcançavam o primeiro plano daquela pintura em que o artista se representava, secreto e separado. Nem ele nem ela olham para o fundo da paisagem onde há uma fonte ao lado dos corpos esticados, o herói morto na batalha sob o escudo que sua mão segura em um último desafio, e o adolescente que uma flecha no espaço parece escolher, multiplicando ao infinito o sentido que se resolve distante, por uma confusão de homens em retirada e estandartes rotos.
*
O escudo já não reflete o sol; sua lâmina opaca, que já não se diria de bronze, contém a imagem do ferreiro que termina a descrição de uma batalha, parece assinalá-la em seu ponto mais intenso com a figura do herói cercada por inimigos, passando a espada pelo peito do mais próximo e levantando seu escudo ensanguentado para defender-se do pouco que se vê entre fogo e raiva e vertigem, a menos que essa imagem descoberta seja a da mulher, que seu corpo seja o que se rende sem esforço para a lenta carícia do adolescente que pousou sua lança nas bordas de uma nascente.
*