Ossadas ausentes e memórias opacas

Me lembrei do J. J. foi seu amigo. Corpulento, foi chapa na estrada federal que corta a cidade. Andava sempre sem camisa, de bermuda e chinelos, em qualquer ocasião. Voltemeia o via de tênis, essa era a única variante nesse esquema de vestimenta. Com um terço dos dentes na boca e falava sempre sorrindo, quase gargalhando, o que em alguns momentos dificultava a compreensão de sua fala, cuja dicção era comprometida, também, pela falta de dentes na boca. Foram diversas as vezes que nos encontramos em jogos de futebol. Eu sempre me lembrei de J. e J. sempre se lembrou de mim. Jogaram no mesmo time, o P. Os dois, dupla de zaga imbatível. J. corpulento, bruto, mas classudo. A força e robustez eram resultado do trabalho pesado. Era conhecido por carregar 150 quilos de PVC na cabeça. Comia muito e bebia pouco. Teve um AVC. Nunca mais jogou bola, carregou PVC ou sorriu com poucos dentes – ao menos pra mim, que nunca mais o vi.

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Falamos sobre as pessoas como se falam sobre as pessoas no interior. Quem morreu, quem casou, quem come quem e quem dá pra quem; quem tá rico e quem tá quebrado; quem tá preso e quem saiu da cadeia. Listamos nomes, tecemos comentários e criamos categorias que aglutinavam personalidades em esferas de similaridade. Aos poucos prevalecia a lista dos mortos, aqueles nomes e rostos que compuseram o cotidiano de décadas de nossas vidas. E o O., da bicicleta? – Morreu, sô! Faz um ano quase já! E o A. pai de J. da menina de cabelinho de milho? Morreu também, acho que de desgosto depois que ela engravidou do S. e ele foi preso – lembrei na hora de Z.C. também morreu de desgosto, mas isso é assunto pra outra hora. O H. da esquina? É, câncer no testículo, morreu rápido. Durou nada. Sofreu viu. Seguimos a lista com outros, jovens, velhos, meia-idade; assassinato, doença, acidente; eu cito um nome e ele diz se vivo ou não. O tempo chega pra todo mundo, ele diz. Eu olho para a rua sem pessoas. O comércio fechado. O silêncio e o burburinho eventual vindo da vizinhança. Fogos. O cano alterado de uma moto ruge em algum lugar. Uma criança corre de um lado para o outro a algumas quadras de nós. Lembro então dos lugares que percorri horas antes, das ruínas das vidas que vivi, dos cemitérios que hoje são praças e praças que parecem cemitérios. Ossadas ausentes e memórias opacas. A casa do Gordo, o morro, a cadeia, a oficina. A rua da casa de M. O casarão antigo do Homem dos Passarinhos. A casa de Q. onde B. nasceu, hoje abandonada. Bairros que pareciam inalcançáveis. Nada era, tudo foi. A criança segue correndo. Insiste nessa brincadeira imaculada, inapreensível a nós, distantes, de chegar cada vez mais rápido ao fim.