Ligação – Miljenko Jergović

Tradução livre para o português do conto “A Ring”, do croata Miljenko Jergović, parte da coletânea Sarajevo Marlboro, publicado em 1994; a edição em inglês foi publicada pela Archipelago Books em 2004, com tradução de Stela Tomasevic.


Ligação

Miljenko Jergović

O médico nos avisou que minha avó morreria naquela noite. Ela perderia a luta pela vida. Já sabíamos disso. O que me assombrou na verdade foi o tom e a precisão desse aviso, como uma negação absoluta de esperança. Como poderíamos nos preparar para a sua morte? Como se acostumar com essa ideia, antes mesmo daquele momento terrível quando o telefone tocou no meio da noite e uma voz burocrática e nada familiar diz que há pouco, enquanto você dormia, uma alma humana tão amada por você expirou na ala de oncologia do hospital de Koševo?

Minha mãe passava todas as noites no hospital. Voltava para casa no raiar do dia e chegava quase sempre calada, meneava a cabeça e ia para a cama. Era verão de 1986 e a Copa do Mundo estava sendo sediada no México. A agonia prolongada que culminou com a morte de minha avó começou quando os times ainda estavam na fase de grupos, que antecede o mata-mata, e foi até às quartas-de-final, com os jogos transmitidos ao vivo na tevê pela madrugada. Acompanhado apenas pelos jogadores e comentaristas, eu aguardava pela volta de minha mãe todas as noites. Assim que ela chegava, eu desligava a tevê e ia falar com ela nos poucos minutos em que eram possíveis desejar boa noite antes de ela ir para o quarto. Então eu também ia para o meu e dormia até o meio-dia.

A cidade inteira parecia relaxar nos cafés e nas calçadas. Cansados do inverno e dos resfriados, todos absorviam o clima ameno antes da chegada das ondas de calor. Eu costumava beber meu café no lado mais ensolarado da rua, cheia de carros que iam em direção ao centro da cidade. Eu falava sobre os jogos da noite anterior com alguns amigos e encontrava formas de passar o tempo até a noite, quando começaria mais uma vez o ciclo familiar de espera pela morte,  enquanto eu assistia os jogos da madrugada na Copa do México.

Durante as semi-finais, minha mãe voltou do hospital e, ao invés de ir direto para o quarto, foi passar um café na cozinha. Eu, claro, abaixei o volume da tevê – os alemães silenciosamente celebravam um gol. Nenhum de nós disse uma palavra. Então é isso, eu pensei – O Fim. Fomos dormir mais cedo, pois pela manhã a casa estaria repleta de pessoas, familiares e amigos que viriam para nos confortar, amenizar a nossa dor com abraços e presentes.

Na copa, eu organizei algumas garrafas de uísque, café e um pote com cubinhos de açúcar. Recebi dezenas de rostos familiares e também desconhecidos e disse muitos adeus. Eu fui educado, um pouco frio talvez, em resposta às expressões de preocupação de todos. Eu já não via a hora de terminar todo esse martírio.

No dia seguinte nos comunicaram que a minha avó não poderia ser recebida no necrotério porque ela ainda estava com seu anel de casamento. A razão disso é que algumas famílias reclamaram – ou reivindicaram – que objetos de valor que estavam com seus entes queridos, haviam sido roubados. Essa nova prática então foi instituída como forma de proteção e, desde então, itens valiosos como jóias precisariam ser retirados antes que o corpo seja transferido. Minha mãe então foi até o hospital e resolveu esse problema.

“Vamos colocá-lo de volta no dedo dela antes do enterro,” ela disse, colocando distraída o anel no criado-mudo. Ela só foi se lembrar onde o colocou muito tempo depois.

O funeral foi tranquilo, sem muitas lágrimas ou drama. Em uma placa de bronze pregada ao caixão estavam inscritos alguns fatos da vida de minha avó, seu nome de solteira, o nome de casada, ano de nascimento e o de morte, 6 de junho de 1986. Ninguém se interessa muito nestes detalhes. Eu gosto de pensar nessa ideia de que no futuro, talvez, quando todos estivermos mortos e esquecidos, um time de arqueólogos vai nos encontrar em alguma escavação – como eles fizeram em Pompeia – e encontrarão a placa de minha avó, e louvarão isso como algo extremamente fascinante.

Passadas todas as cerimônias, nossa casa parecia mais vazia do que antes. Os parentes em luto voltavam para as suas casas e suas vidas, minha mãe nos contava algumas histórias da vida de vovó – como um acalento, mais para ela, claro – e eu ligava a tevê para assistir a final da Copa do Mundo. O ciclo enfim terminava e estava na hora de dizer adeus para o torneio. Do outro lado do mundo um estádio gigantesco fervia de vida numa orgia excitante. Eu não conseguia me identificar com os gritos entusiasmados da torcida, mas talvez seja exatamente esse o motivo de isso ser tão atraente para mim. Na falta dos meus próprios sentimentos, era possível ser feliz assistindo um espetáculo feito para que eu esquecesse da realidade, como num orgasmo, por exemplo, onde nada mais importa.

A morte de minha avó também foi a morte da mais pura tristeza de minha inocente infância. A escuridão de minha adolescência deve algo ao humor característico dessa fase da vida, de um tipo mais íntimo, mas por outro lado gosto também de pensar que esse período de miséria e desolação seja apenas um sinal das coisas que virão, como um cataclisma iminente – um tempo de mortes inumeráveis e sofrimentos infinitos. Já não faz mais sentido se preocupar com as perdas, desde que a guerra fez da morte algo banal, um hábito, sem sentimento. Manifestações públicas de dor e pesar raramente são vistas hoje em dia. Quando inesperadamente ocorrem, são cheias de lágrimas e lamentos inconsoláveis. Quanto mais corriqueira a causa da histeria, mais difícil se torna controlar o choro que se alastra. É por isso que filmes dramalhões, histórias de amor bestas e mortes de animais em beiras de estradas são coisas que eu prefiro evitar.

Muitas das garrafas de bebidas que servimos no funeral foram consumidas durante a guerra. Elas ficaram na copa por anos, mas logo no primeiro gole, o líquido correu pelas veias mais rápido que nosso próprio sangue. Só um milagre seria capaz de deixá-las intactas.

O anel de minha avó não foi roubado ainda. Na verdade ele permanece aqui, no chão, como uma meia memória. A outra metade está sete palmos abaixo, com o meu avó, morto e enterrado há muitos anos, bem antes da funerária introduzir essa nova regra sobre jóias.