Anônimos e os nomes do cotidiano de nossas vidas

Há esse rapaz, cujo nome eu não sei e que encontro quase todos os dias e sempre nos cumprimentamos. Nosso laço é um terceiro, cujo nome só fui descobrir depois de já não mais conviver com ele. Descontadas as trapaças da memória, aposto que já fazem uns dois anos que ele se foi. Se foi, não que morreu, mas sim vendeu a banca de jornais que manteve por um bom tempo aqui por perto e agora foi fazer outra coisa, coisa que também não sabemos, nem eu e nem o rapaz cujo nome eu não sei. Esse terceiro, junto com o outro, formava esse grupo de hora do almoço, um intervalo de tempo onde nos encontramos, falamos mal do governo, da cidade e vez ou outra de futebol. Aquele que ainda não sei o nome, como eu disse, eu vejo sempre desde então. No encontro de hoje, descobri o nome do terceiro. Nivaldo.
 
Eu penso nessas pessoas que conhecemos, dividimos grandes fatias das nossas vidas e mesmo assim nos são anônimos. Metrópoles são locais que facilitam essa dinâmica. Um distanciamento natural nas relações, rápidas e superficiais, dada a enormidade geográfica e esse frenesi contemporâneo. Não há porque aplicar um esforço na direção de um vínculo que possivelmente nem exista amanhã. No interior a história é outra, o tempo e frequência dos encontros são outros. As identidades se dão, como de costume, a partir dos cruzamentos de vínculos familiares, profissionais e de origem, elementos que contam uma história, a história desse sujeito, seladas com seu nome: O Dinho marceneiro; a Dirce da venda; a Preta do Guido; a Maria baiana; o Gabriel do jornal. Durante mais de uma década eu fui conhecido assim e mesmo depois de anos fora do meio jornalístico o Wandinho da lanchonete ainda anotava na minha caderneta de fiado: Gabriel do jornal. É assim até hoje.
 
Depois de descobrir o nome do Nivaldo e pensar em tudo isso, pensei também em perguntar para o rapaz que eu não sei o nome, o nome dele. Passeiam agora pela minha cabeça diversas outras pessoas que se encaixam aí nessa categoria. Há alguns anos eu disse que sempre perguntava o nome dos garçons porque preferia chamá-los assim, pelo nome, porque era mais fácil conseguir a atenção deles, para ser atendido mais rápido, pra obter um tipo de atendimento especial, um mimo, mas também por acreditar que substituir o nome de alguém por uma função era um tipo de apagamento de identidade. Esse esforço que eu disse sobre esse vínculo, e penso que num local como São Paulo seja, se não natural, possível e talvez necessário. Mesmo considerando essas distinções de tempo e frequência entre metrópole e interior. Nunca se sabe de antemão as chegadas e partidas das pessoas em nossas vidas. Em muitos casos esses que nem sabemos os nomes são os que sustentam o cotidiano da nossa existência.
 
O nome daquele rapaz é Lino.