Gente na rua*

Estranho planeta e nele essa gente estranha.

Sujeita ao tempo, não o reconhece.
Tem seu jeito de expressar seu desagrado.
Faz pequenas fotografias assim como esta:

Nada especial à primeira vista
Vê-se a rua.
Vê-se suas calçadas.
Vê-se um táxi inerte.

Vê-se a faixa de pedrestres e gente fora dela.
Essa gente claramente apressa o passo,
porque de uma nuvem escura
começou a cair uma bruta chuva.

A questão é que ali nada mais acontece.
A nuvem não muda a cor nem a forma.
A chuva nem aumenta nem cessa.
A táxi segue sem se mover.
A gente na rua corre
no mesmo lugar de ainda há pouco.

É difícil passar sem um comentário:
Essa não é de modo algum uma imagem inocente.
Aqui o tempo foi suspenso.
Deixou-se de levar em conta suas leis.

Foi privado da influência no curso dos eventos.
Foi desrespeitado e insultado.

Por causa de um rebelde
(um ser que por sinal,
como sói acontecer, faz muito que se foi),
o tempo tropeçou e caiu.

Talvez seja só uma simples brincadeira,
uma travessura na escala de um par de galáxias,
em todo caso porém
acrescentemos o seguinte:

Será de bom-tom em gerações
ter a obra em alta conta,
deslumbrar-se e comover-se com ela.

Tem aqueles para quem nem isso basta.
Ouvem até o barulho da chuva,
sentem as gotas frias no pescoço e nas costas,
olham a rua e as pessoas,
como se lá também se vissem,
na mesma corrida que nunca termina
na estrada sem fim, eternamente à frente
e acreditam, na sua desfaçatez,
que de fato é assim.


* (Versão de poema de Wislawa Szymborska, cujo original foi traduzido por Regina Przybycien)