Camas baixas como túmulos de árvores

Hoje encontrei dois amigos. Um deles me disse nunca ter visto as margens de um rio no leste europeu. Me disse, na verdade, já não saber distinguir nunca ter visto ou já não se lembrar. Enquanto ele falava havia um esforço em mim, amedrontado pela iminência do esquecimento, para agarrar cada uma daquelas vibrações em palavras encadeadas em indeterminados sentidos dentro dessa estrutura de linguagem que nos é comum – como naquele dia do show da Juçara Marçal em que era possível ver as notas, melodia, timbre, luz, fluidos invadindo toda a casa e atravessando os seres num instante fora do tempo. Eu não disse nada e saí com o eco desencadeado que também vibra até agora em uma órbita de mim. Ele não sabe ainda, também, ter se encontrado comigo e ter me dito todas aquelas palavras. Eu também não sei muitas coisas. Ecos desconhecidos. Amém.

Em meio ao deserto, a presença de algumas ilhas; à frente um arquipélago; à direita duas ilhotas tão idênticas que me fazem cerrar os olhos para corrigir um glitch inexistente. Deja vu.

Escrevo uma carta-resposta a carta do outro amigo que encontro, aquele que prefere me dizer as coisas que não acontecem em sua viagem; ele parece gostar disso, o sussurro contínuo do ócio produto do torpor consequente ao calor extremo. Uma vida ineludível que se alastra. Um velho que dorme em um canto; o canto em voz baixa de um outro em outro canto; o cão rói um osso sob o banco, ; o garçom que agita a garrafa em busca do café ruim, servido num copo tão miúdo onde se acredita beber o esquecimento. – O tempo que corre já não tem mais horas; operários absortos em sonhos observam à sombra o som do arrulho dos pombos; o porteiro de arcada dourada na Arcádia da Arco Verde; labirinto de inúmeras portas; uma entrada e uma saída; camas baixas como túmulos de árvores; a volúpia no canto e no silêncio das sereias.