Theft – Miljenko Jergović

Tradução livre para o português do conto “Theft”, do croata Miljenko Jergović, parte da coletânea Sarajevo Marlboro, publicado em 1994; a edição em inglês foi publicada pela Archipelago Books em 2004, com tradução de Stela Tomasevic.

 


Éden

Miljenko Jergović

No nosso jardim havia uma macieira. Os frutos eram de dar água na boca e alcançavam à vista da janela do segundo andar da casa ao lado. Nossos vizinhos, Rade e Jela, iam com frequência ao mercado, e compravam maçãs para as duas filhas pequenas, mas isso não adiantava nada. Por mais saborosas que fossem, nunca chegariam aos pés das tentadoras maçãs vistas daquela janela do segundo andar. Todas as manhãs, assim eles saíam para trabalhar, as garotas pulavam a cerca do jardim para pegar aquelas que já haviam caído de maduras. Todas as manhãs também, eu as perseguia e as expulsava dali, jogando barro ou pedras. Eu defendia a minha propriedade, claro, mais por princípios do que por preferir aquelas maças em particular. Por vingança uma das meninas, a mais nova, disse para a minha mãe que eu tinha tirado um “F” em matemática. Aí que minha mãe acabou aparecendo de surpresa na escola para confirmar a verdade das acusações de minha inimiga. Como castigo eu passei alguns dias sendo torturado com equações de segundo grau. Todos aqueles x’s e y’s fizeram da minha vida um inferno. Resolvi dar o troco e fiz o seguinte: encontrei um esconderijo no jardim e fiquei o dia todo esperando. Em algum momento elas apareceram e foi então que eu saí de trás dos arbustos e peguei uma delas pelo cabelo e puxei até a nossa casa. Eu tinha planejado trancá-la na despensa até minha mãe chegar do trabalho para então dar um castigo nela. Mas a menina estava muito brava, gritava e se debatia e no final escapou, deixando um punhado de cabelos na minha mão e até um pedacinho de couro cabeludo. Fiquei com raiva e corri pra dentro trancando a porta logo atrás de mim. Um pouco mais tarde, ouvi o pai delas gritando debaixo da nossa janela dizendo que ele ia me matar. Ele teve de ficar repetindo a ameaça pra minha mãe porque ela não deixava barato e respondia à altura. Eles ficaram umas três ou quatro horas trocando xingamentos na janela. Minha mãe chamava Rade de gângster de Kalinovik. Ele retrucava chamando ela de vagabunda sem-vergonha.

Tem uns 20 anos mais ou menos que os dois nunca nem dizem olá um para o outro. Além disso, é bom que se diga também, nenhuma das meninas voltou para roubar maçãs de novo. A cada ano,  entra agosto e sai setembro, as maçãs continuam bonitas e tentadoras e as famílias seguem vivendo lado a lado sem trocar nada além de olhares. Nossos pais envelheceram, mas nunca esqueceram daquele episódio. Depois de um tempo as garotas se casaram e foram embora. De resto continuou tudo a mesma coisa.

Poucos dias depois da guerra começar, a polícia veio até o apartamento de Rade e Jela. Durante a busca foram encontradas duas armas de caça e um rifle automático. Os vizinhos ficaram apavorados e especulando quem Rade planejava matar e de que forma. Nos últimos tempos ele tinha parado de sair de casa. Será que preparava uma emboscada para alguém? Jela, no entanto, continuava saindo todos os dias, para buscar água e comida, que chegavam nos comboios de ajuda humanitária, até que um dia uma bomba explodiu a 10 metros dela, arrancando seu braço fora. Essa tragédia acabou forçando Rade a sair de casa. Depois de muito tempo, os vizinhos puderam vê-lo em carne e osso de novo – ele tinha envelhecido de um jeito esquisito nesses últimos meses e parecia ter uns cem anos. Quando finalmente botou os pés pra fora, carregava uma panela de sopa e um saquinho com 3 limões murchos. Ia até o hospital todos os dias, com a cabeça baixa o tempo todo, parecendo morrer de medo de olhar alguém nos olhos.

Durante a guerra, em setembro, nossa macieira continuava dando frutos e eles eram tão maduros e saborosos como nunca. Minha mãe brincava que não se viam maçãs tão gostosas assim desde o Jardim do Éden. Eu subi na árvore até esse galho que era tão alto que eu podia ver as posições dos guerrilheiros no Trebevic. Suspenso no céu eu ia pegando um monte maçãs, animado igual o Tio Patinhas jogando dinheiro pro alto dentro do seu cofre. Quando eu estava alcançando a maçã mais linda da árvore, bem perto da janela de Rade, eu o vi no fundo do quarto. Eu gelei pendurado no galho e então vi que Rade se afastou um pouco. Por algum motivo naquele momento eu não quis que ele fosse embora.

“Como você tá, tio Rade?”

“Toma cuidado, filho, aí é alto – não vai cair, hein!…”

“A tia Jela tá bem?”

“Bom, ela tá indo, né… só com uma mão pro resto da vida. Os médicos disseram que logo ela sai do hospital.”

Conversamos por longos dois minutos. Eu segurava no galho com uma mão e com a outra o saco cheio de maçãs. De repente eu fui tomado por uma sensação de náusea que era infinitamente pior do que qualquer explosão de bomba ou por qualquer uma dessas armas que podem ou não ter sido encontradas na casa de alguém. Era foda ficar suspenso no topo daquela árvore bem na frente da janela do Rade; tudo o que eu sabia sobre mim e sobre as outras pessoas tinha perdido o sentido.

Rade continuou: “Sabe, filho, quando você perde um braço, você continua sentindo ele por um longo tempo ainda. É um negócio psicológico, como se você tentasse enganar a si mesmo pensando que ainda tem o braço. Todo dia eu cozinho alguma coisinha pra levar pra minha mulher, mas não tem vida nisso, sabe. Eu olho pro feijão ali na sopa rala, aí eu olho pra ela e digo: ‘Jela!’, e ela não responde. Aí ela diz ‘Rade!’, e aí é eu que não respondo. Cê entende, garoto? A gente tá vivo só o tempo suficiente para ver um ao outro e depois perceber que não estamos mais vivos. É isso. Às vezes eu olho pra essas maçãs e fico maravilhado com a vida que eu nelas, e elas não ligam pra essas coisas, elas nem mesmo sabem e eu nem devia estar falando nelas, na verdade… ”

Eu estiquei o braço e entreguei o saco de maçãs pro Rade. Ele me olhou surpreso e acenou com a cabeça. De repente me deu um nó na garganta e não conseguia abrir a boca. Fiquei paralisado por quase um minuto; se os guerrilheiros tivessem me observando eles iam ficar bem confusos. Rade tremia como alguém que já não tinha mais nada a perder; um animal amedrontado e infeliz. No final ele levantou a mão, mas ainda assim não conseguiu dizer nada. Nem eu.

No dia seguinte Rade bateu à nossa porta com um milhão de desculpas por estar incomodando a gente. Entregou alguma coisa enrolada em jornal e saiu rapidinho. Eu nem tive chance de falar com ele. O pacote era um pote de geléia de maçã.

Mais tarde Jela voltou do hospital. Eles continuaram a viver daquele jeito estranho, escondidos em casa. Rade saía eventualmente para ir buscar a ajuda humanitária. Um dia, parado na frente de casa, bem ao lado de minha mãe, ele falou “Obrigado” de um jeito bem baixinho para ela, que se virou no momento certo para ouvir ele dizer, também e mais uma vez, que as maçãs eram repletas de vida.

Alguns meses depois, um punhado de homens em uniformes vieram buscar Rade umas duas vezes. Eles o levavam e depois traziam de volta. Os vizinhos assistiam essa movimentação pelas frestas das cortinas e buracos da fechadura. Lembrar das armas escondidas era inevitável. Meia dúzia de fofoqueiros vieram de novo com aquela idéia que ele planejava matar alguém. Outros ficavam quietos, como se o simples falar sobre tudo isso já fosse desgraça suficiente. A solução óbvia seria odiar Rade, mas enfim, nem isso era possível.

Ninguém sabe quem matou Rade e Jela. Eles simplesmente desapareceram sem alarde ou explicação. Talvez seja errado dizer o que eu vou dizer, mas eu só lembro duas coisas sobre o pobre Rade: da sua geléia e do fato de que nunca, nunca mesmo, nem de madrugada, ele foi capaz de esticar o braço pela janela para roubar uma maçã sequer.

 

IMAGEM: Vista do monte trebevic em sarajevo, fortaleza sérvia durante o cerco 1991-1995. Fotografia de RON W.