Bou-Saâda, Reganne, In Shala, In Amguel, Chabounia

Em abril de 2017 um homem corta as unhas do pé sob a sombra de uma palmeira em uma praça no centro de Bou-Sâada, a 264km da costa argelina; poucos metros à frente uma pessoa – não se sabe se homem ou mulher – se abriga do sol forte sentada em um coreto e checa algo no que parece ser um celular – nunca saberemos; três jovens ao fundo caminham ao sol e a inclinação de seus corpos indica uma certa urgência – também buscam abrigo, talvez? A camisa azul e com motivos tropicais de um dos garotos destoa na paisagem local, fazendo trio com os postes de iluminação da praça, estranhamente pintados num tom de azul clarinho, e com o céu. Curioso, o de azul percebe qualquer coisa que os amigos ainda não se deram conta e a parte superior do seu corpo gira em uma direção oposta; não é possível perceber sua fisionomia, apenas o tom de sua pele, algo avermelhado, escuro. Ainda, na mesma praça, um homem sentado olha fixamente para o chão.

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A mil e trinta e seis quilômetros a sudoeste, em Chabounia, um pastor conta suas ovelhas. Trinta e sete.  Oito delas são rajadas. Não há rotas disponíveis em mapas para se chegar a Chabounia. A cidade mais próxima é Taghit, com 6 mil habitantes e fica na região de Bechar.

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Um homem chamado Richard pedala alguns quilômetros no deserto, entre os povoados de In Shala (onde uma criança se esconde atrás de um carro coberto por uma lona de proteção) e In Amguel e chega ao topo de uma colina para observar o pôr-do-sol. Ele abandona a bicicleta antes de chegar ao topo.

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K.N.A., guia turístico nível 9 de acordo com as avaliações do Google, tenta fazer uma fotografia panorâmica do Saara ao entardecer. A foto fica borrada, algumas partes não se encaixam, não se sabe se por problemas da câmera ou pela inabilidade de K. no manuseio do equipamento – é a primeira fotografia que ele faz com o modo panorâmico do celular. Ele publica a fotografia mesmo assim, gosta dela.

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Eu também gosto.