Dedicatória

Um senhor assiste no celular um vídeo com depoimentos de pessoas que utilizaram um método infalível para ganhar na loto-fácil. A menina de olhos verdes com um triângulo tatuado no antebraço suspira irritada com a lentidão do trânsito e depois se oferece para segurar a bolsa do homem magro e baixinho com camisa pólo azul que se estica com dificuldade para segurar a barra no topo, ignorando as laterais, mais fáceis e acessíveis; as pálpebras cerram e abrigam os olhos verdes; uma senhora apaga o que parecem ser conversas comprometedoras num tablet com as bordas rachadas e então abre uma nova janela para dizer ‘daqui a pouco to aí’; outra lê ‘de repente, nas profundezas do bosque’ do amos óz ao lado do rapaz barbudo que tá no finalzinho de ‘cama de gato’ do Vonnegut; à minha frente um garoto com trajes de advogado e mochila preta e pequena de couro marca um churrasco com os amigos no carnaval; uma mãe dá bronca no filho pequeno em uma língua que suspeito chinês; em uma bolsa entreaberta uma folha de papel mostra uma palavra impressa que parece o título de um poema que eu tento fotografar e falho devido ao sacolejar do ônibus guiado de forma agressiva pela motorista; ao fundo, cinco pessoas dormem. desço com o título em mente: dedicatória.

8/2/2018