O cacto – Miljenko Jergović

Tradução livre para o português do conto de Miljenko Jergović, parte da coletânea Sarajevo Marlboro, publicado em 1994; a edição em inglês foi publicada pela Archipelago Books em 2004, com tradução de Stela Tomasevic.


Ela sempre teve medo de perder as coisas importantes e belas da vida. Viajou muito, mas com frequência entrava em pânico por estar em casa. Por alguma razão ela sempre pensou que a verdadeira felicidade, o prazer, estava em outro lugar. Como resultado disso, ficava sempre pensando em formas de parar o tempo e agarrar esses momentos feitos de cristal que se aproximam de um sonho ou conto de fadas.

Num dia, no final de dezembro de 1990, ela me disse que queria passar a virada do ano na ilha de Hvar, com um pessoal que eu nem conhecia. Seu entusiasmo era tanto que ela conseguiu fazer esse desejo me parecer uma boa idéia. Eu fiquei um pouco surpreso e sabia que as minhas possíveis dúvidas só a deixariam desanimada, então acabei aceitando, como se tivéssemos decidido isso juntos. Nos encontramos em Marinjidvor na manhã do último dia do ano. Os bondes ainda nem estavam funcionando. Eu fui apresentado a algumas pessoas, homens e mulheres, com roupas de festa que me lembravam noitadas e bebedeiras. Uma dúzia de nós, mais malas e um cachorro boxer, meio nervoso, espremidos em três carros. O comboio partiu então com dois VW Golfs na frente e o que sobrou de um Citröen 2CV como retardatário. No carro velho estávamos nós dois, um careca estudante de engenharia, sua namorada feia e gorda e o boxer. Parecia que o carro se mantinha inteiro amarrado por fitas adesivas, dessas marrons de embrulhar encomendas. Não por acaso entrava um vento gelado pelas frestas das janelas e nossos pés praticamente tocavam o chão. Enquanto rastejávamos pela estrada, a gordinha falava sobre perfumes franceses e o cachorro peidava sem parar. Em cada um desses momentos eu sorria para minha namorada e fazia um comentário alegre, me esforçando para fazê-la pensar que eu estava curtindo o momento. O carro avançou pelo Monte Ivan a 10km/h até Konjic, onde engasgou por uma duas vezes até morrer de vez. O cachorro, além de peidar, agora também latia alucinadamente. Saímos do carro e ficamos à espera do resgate pelo restante do grupo que seguia nos VW. Começamos então a pensar em maneiras de encaixar todo mundo nos carros que ainda estavam na estrada. Quem iria com quem? Era impossível decidir. Não importava qual a combinação de gente, malas e animais peidorrentos fosse proposta, minha namorada e eu sempre acabávamos sendo estranhamente colocados separados. E finalmente, quando decidimos quem continuaria a viagem de trem e quem iria de carro, eu coloquei minha mão em seu ombro e falei baixinho: “Por que a gente não volta?”

De uma forma que eu não esperava, ela não me olhou com reprovação. Só encolheu os ombros e suspirou cansada.

“Quem vai falar com eles?” – eu disse.

“Você fala. Afinal de contas, você é o homem.”

“Acho que vai soar melhor vindo de você. Eles são seus amigos. Além disso, se eu for falar, eles vão ficar com uma idéia errada de que estamos irritados com alguma coisa.”

Eu estava certo, claro, e no final ela foi lá falar com eles. Disse apenas que iríamos voltar pra Sarajevo. É engraçado, eu tenho essa habilidade de confiar tarefas desagradáveis (e agradáveis também!) aos outros.

Nós tivemos de esperar umas duas horas e meia antes do próximo trem. Ficamos juntos no frio e vazio lounge do hotel, olhando um para o outro e nos abraçando de jeitos divertidos.

“Que pena!” – eu menti.

Ela se culpava por ter arruinado meu final de ano, mas meus beijos e outras artimanhas de sedução a convenceram de que nada ali estava arruinado.

“Eu sinto muito pelos presentes.”

Eu sempre gostei da troca de presentes, então insisti que a fizéssemos em Konjic. No começo, ela resistiu porque as circunstâncias não pareciam festivas o bastante. Ainda esperava pelo momento perfeito. E mais uma vez, usei os meus poderes de persuasão, que eu já contei aqui para vocês.

Ela abriu cuidadosamente a mochila, e mais cuidadosamente ainda tirou uma caixa, que mostrava o logo de uma conhecida marca de conhaque.

“Abra!” – ela disse.

A caixa era leve, então obviamente não havia garrafa nenhuma ali. De qualquer forma, isso seria um presente meio idiota. Dentro da caixa havia esse misterioso objeto, embrulhado de forma bonita em papel branco. Ela fez um gesto com as mãos e então eu desembrulhei, revelando um pote com um pequenino cacto, do tamanho do polegar de um bebê.

Eu nunca disse a ela que eu odiava plantas, principalmente porque elas demandam atenção e rotina. Você tem de pensar nelas o tempo todo e eu nem mesmo penso em pessoas o tempo todo, que dirá plantas. Eu lembro quando minha avó morreu e todas as plantas em casa morreram. Eu me senti triste, apesar de odiá-las.

Eu a beijei e sorri e disse algumas palavras românticas. Assim que a convenci da minha sinceridade, dei o meu presente, um frasco de Channel n.5 (que, claro, comprei pensando em Marilyn) e uma coleção de ensaios de Susan Sontag sobre fotografia. Eu tive de dar o perfume porque ela desconfia das minhas escolhas literárias, sempre suspeitando, e em alguns casos com razão, de que eu geralmente penso em mim mesmo, ao invés dela, quando se trata de indicar um livro.

Eu coloquei o cacto em um canto do meu quarto onde ele podia receber sol suficiente, proximo à imagem de St. Vlach e um cristal com um furo no meio, que eu mantenho ali porque diz que traz sorte. Alguns meses depois estourou a guerra na Croácia; o filme sobre Špegelj, os conflitos em Plitvice, Borovo Selo…

Eu regava o cacto regularmente em intervalos de cinco dias e tive o cuidado de não tirá-lo do lugar. De vez em quando eu lembrava do que minha avó dizia, quando eu ainda era um garoto, de que nunca se deve tirar um cacto do lugar. Ele deve ficar apenas em um lugar – e nesse lugar apenas -, não que o lugar em si importe, não é o tipo do lugar, se ele é o melhor ou o pior lugar disponível, mas que ele simplesmente pertença àquele lugar. Enfim, eu realmente cuidava do cacto, quer dizer, eu me surpreendi pelo fato de nao ter causado nenhum mal a ele.

Ao invés de morrer, como se espera de uma planta bonitinha que foi ganhada de presente em uma ocasião especial, o cacto cresceu, espalhando seus espinhos por todos os lados, parecia um bebê ouriço, cada vez mais gordo e virando-se para o sol. O heliótropo já não era do tamanho do polegar de um bebê, e quando minha namorada veio me visitar, ficou contente em ver que o cacto não sofreu com a minha negligência habitual.

“Ele está começando a se parecer com você” – ela disse.

“O cacto?”

“Bem, não como você exatamente, mas como uma parte da sua anatomia.”

Eu devo admitir que tal comparação não havia passado pela minha cabeça. Mas dali em diante não pude deixar de ver isso dessa forma. O cacto se tornou um agradável detalhe em nossas vidas, o tipo de coisa que faz um relacionamento ficar na memória.

Nos dias em que Vukovar estava sendo destruída, eu sentia um frio na espinha. A vida em si se tornou um negócio muito sério, diferente de tudo até então. Era como se qualquer erro pudesse ser fatal, embora eu não soubesse como ou porque.

No final de abril eu me mudei para o porão. Um morteiro atingiu a copa da macieira. Minhas janelas se despedaçaram, um estilhaço menor que um grão de arroz destruiu o espelho da penteadeira próxima ao guarda-roupa. O vidro se quebrou de um jeito que o seu padrão era regular como as linhas de longitude e latitude em um mapa-múndi. Os telefones ainda funcionavam e eu tentei avisar a minha namorada. Ela não entendia o que havia acontecido. Provavelmente pensou que eu estava ficando louco.

A cada cinco dias eu subia as escadas para regar o cacto. Meus movimentos pareciam o de um guerrilheiro.¹ O tempo todo nervoso, eu olhava para fora esperando uma bala a qualquer momento. No porão, no entanto, eu tinha privacidade, me sentia quente e seguro, apesar da umidade. Havia o fedor das batatas podres e o pó de carvão que doíam meus olhos, mas eu não estaria mais confortável em um útero.

Minha namorada veio para enfim acreditar que a morte só acontece em Sarajevo. Ela se tornou extremamente sentimental e de algum jeito quase distante. Me perguntou se eu queria me mudar com ela para a Nova Zelândia. Eu disse que estava feliz no porão, e de qualquer forma, a Nova Zelândia ficava muito longe. Eu não penso que seria feliz Lá Embaixo. Ela não perguntou do cacto. Eu também não falei nada.

As pessoas mudam quando elas se encontram sozinhas na escuridão. Isso acontece de maneira sutil, imperceptível. Eu ouvi a história de um homem que foi dormir à noite como de costume e percebeu pela manhã que seu cabelo tinha ficado completamente grisalho. Ele não se lembrava se tinha sido um pesadelo ou um sonho ruim. No momento eu vivo desesperadamente com medo do frio.

Em uma manhã – era o quinto dia – eu acordei e descobri que a água do apartamento tinha congelado. E aí então me ocorreu que o cacto devia estar com dificuldades para lidar com o frio também. Eu o trouxe para baixo e o coloquei no porão, do lado oposto à fornalha que uso para guardar o carvão. Nem muito perto, nem muito longe. Calculei um ponto preciso onde poderiam ser acomodadas uma pessoa e um cacto. No dia seguinte havia uma goteira ao lado do pote. Como assim uma goteira? E, veja só, a ponta estava para baixo, como se o sol estivesse no chão. Reguei o cacto pela última vez, mas percebi que era tarde demais. O fim estava próximo!

A guerra me ensinou como acalmar meus nervos e emoções artificialmente. Hoje em dia, durante uma conversa, quando alguém toca em um assunto que eu sei que vai me deixar irritado ou triste, eu sinto essa pequena luz vermelha automaticamente piscando dentro de mim, não muito diferente daquelas que você pressiona para eliminar o ruído ao fundo em uma gravação. Depois disso, eu nem sinto nada. Mas quando eu penso no cacto, a luz se recusa a aparecer, e nada mais pode me ajudar. É como uma pequena morte.

Há alguns anos, muitas pessoas ficaram perturbadas porque descobriram que os cavalos morrem de pé. Vocês se lembram?. Eu só fico triste quando penso no jeito em que o cacto morreu, como o jovem no poema de Goethe. No final das contas, isso tudo não tem importância, exceto como um aviso, para que não se dê muita importância aos detalhes na vida. Isso é tudo.

NOTAS: 1 – No original “chetnik”. Guerrilha nacionalista e conservadora sérvia, oposicionista ao Império Otomano no século 19. Na segunda GUerra Mundial, o Exército Yoguslado da Pátria também ficou conhecido como “CHETNIK”. Derivação de uma palavra servo-croata adaptada do turco: četa, que significa “companhia militar”.