Um conto do Coetzee

Henri Matisse: Interior at Nice (Room at the Beau Rivage), 1917–1918

(Tradução livre feita por mim, como exercício de tradução literária, do conto original em inglês publicado na edição de dezembro da The New York Review of Books. )

*

Mentiras 

J.M. Coetzee

 

Querida Norma,

Estou escrevendo de San Juan, do único hotel da cidade. Fui ver minha mãe hoje à tarde – fica a meia hora de carro daqui, por uma estrada ruim. O estado dela está pior até do que eu temia. Só anda com a ajuda de uma bengala e mesmo assim, muito devagar. Não consegue subir as escadas desde que voltou do hospital. Tem dormido no sofá da sala-de-estar. Tentou trazer a cama para o térreo, mas como ela havia sido montada in loco, precisaria ser desmontada primeiro. (Penélope também tinha uma cama assim, não – a Penélope de Homero?)

Seus livros e papéis estão todos no andar de cima. Não há espaço para eles embaixo. Ela se preocupa, quer voltar para a sua mesa, mas não pode.

Há um rapaz chamado Pablo que a ajuda com o jardim. Perguntei quem tem feito as compras e ela diz ter se alimentado só com pão e queijo, além do que consegue no jardim e que não precisa mais do que isso. Mesmo assim, eu questiono se não seria melhor ter alguém do povoado que viesse eventualmente para cozinhar e limpar a casa. Ela nem quer ouvir falar sobre isso – não conheço ninguém lá, diz. Pergunto sobre o Pablo. Ele não é do povoado? Deixe o Pablo em paz, ele não é de lá, diz.

Até onde eu sei, Pablo dorme na cozinha. Ela não está sempre aqui e nem sempre lá, seja lá o que isso signifique. Enfim, ele é só um idiota.

Eu nem toquei no assunto principal – até quis, mas não tive coragem. Faço isso amanhã quando voltar lá. Não posso dizer que estou otimista. Ela tem sido legal comigo. No entanto, imagino que ela já tenha uma vaga idéia do porquê eu ter vindo.

Durma bem. Dê todo o meu amor às crianças.

John

*

“Mãe, podemos falar sobre sua situação por aqui? Falar sobre o futuro?”

Sua mãe, sentada na velha e surrada poltrona, construída pelo mesmo carpinteiro que montou a cama, não disse uma palavra.

“Você sabe que eu e Helen nos preocupamos com você. Você sofreu uma queda feia uma vez e é apenas questão de tempo até isso acontecer de novo. Você não está ficando mais jovem, e vivendo sozinha em uma casa com escadas tão íngremes, num povoado onde não se dá bem com os seus vizinhos – sinceramente, não me parece um jeito possível de se viver, não mais.”

“Eu não vivo sozinha”, ela diz. “Pablo está aqui comigo. Eu confio nele.”

“Ok, Pablo vive com você. Mas dá para confiar nele em uma emergência? Ele te ajudou de alguma forma da última vez? Se você não tivesse conseguido ligar para o hospital, onde estaria hoje?”

Assim que as palavras saíram de sua boca, ele soube que havia cometido um erro.

“Onde eu estaria?” disse sua mãe. “Você parece saber muito bem a resposta, então porque pergunta? Embaixo da terra, sendo devorada por vermes, eu imagino. Era isso que eu deveria te responder?”

“Mãe, por favor, seja razoável. Helen esteve pesquisando e encontrou dois lugares não muito distantes de onde ela mora, onde você será bem cuidada, locais que farão você se sentir em casa. Você vai deixar eu te falar sobre esses lugares?”

“Dois lugares. Você quer dizer asilos, né? Asilos onde eu vou me sentir em casa?”

“Mãe, você pode chamar do que quiser, use seu sarcasmo comigo ou com Helen, mas isso não altera a realidade – a realidade da vida. Você já teve um acidente sério e tem sofrido as consequências. Sua situação não está melhorando. Pelo contrário, está cada vez pior. Você consegue imaginar o que é estar de cama, nesse lugar esquecido por deus, tendo apenas o Pablo para te ajudar? Já pensou como é isso para mim e para Helen, sabendo que você precisa de cuidados e não estarmos por perto para cuidar de você? Não dá para viajar milhares de quilômetros todos os finais de semana, entende?”

“Eu não espero isso de você.”

“Você não espera isso de nós, mas é isso o que temos de fazer, pois é isso que se faz por aqueles que amamos. Então, por favor, me escute e deixe que eu mostre essas alternativas a você. Amanhã ou depois de amanhã, você e eu deixaremos este lugar e iremos para Nice, encontrar Helen. Antes disso, eu vou te ajudar a empacotar tudo o que é importante para você, todas as coisas que quiser levar. Colocaremos tudo em caixas que serão entregues assim que você estiver acomodada.”

“De Nice, Helen e eu levaremos você para conhecer essas duas casas que mencionei. Uma em Antibes, a outra nos arredores de Grasse. Você dá uma olhada e vê como se sente. Ninguém vai te pressionar. Se não gostar de nenhuma delas, tudo bem, você fica com Helen até encontrarmos outro lugar. Temos tempo.”

“Nós só queremos te ver feliz, feliz e segura, esse é o objetivo. Queremos ter certeza de que se algo acontecer, tenha alguém por perto para te ajudar, para cuidar de você.”

“Eu sei que você não gosta desses lugares, mãe. Nem eu. Nem mesmo Helen. Mas há um momento na vida em que temos de decidir entre a nossa vontade e aquilo que é realmente bom pra gente, entre independência e segurança. Aqui na Espanha, neste povoado, nesta casa, você não tem segurança alguma. Eu sei que você não concorda, mas essa é a realidade. Você pode ficar doente e ninguém ficar sabendo. Você pode sofrer outra queda, ficar inconsciente, quebrar um braço. Você pode morrer.”

Sua mãe faz um movimento com a mão, como que descartando essa possibilidade.

“Os lugares que eu e Helen estamos propondo não são como os antigos asilos. Eles são bem estruturados, bem supervisionados, tudo bem administrado. São caros, sim, pois eles não economizam quando se trata do bem estar dos seus clientes. Você paga e tem atendimento de primeira classe. Se as despesas ficarem muito pesadas, eu e Helen podemos contribuir, ajudar. Você vai ter o seu próprio apartamento; em Grasse, você pode até ter um pequeno jardim, como aqui. Poderá escolher entre fazer suas refeições em um restaurante ou no seu apartamento. Ambos os lugares tem ginásios, piscinas, uma equipe médica disponível o tempo todo, fisioterapeutas. Pode não ser o paraíso, mas é a melhor coisa que alguém na sua situação pode querer.”

“Minha situação”, diz a mãe. “E o que é exatamente a minha situação para você?”

Ele leva as mãos à cabeça, irritado. “Você realmente quer que eu diga. Você realmente quer que eu diga essas palavras?”

“Sim. Faça diferente dessa vez, como um exercício, me diga a verdade.”

“A verdade é que você é uma velha senhora que precisa de cuidados. Cuidados que um homem como Pablo não pode dar.”

Ela balança a cabeça. “Não essa verdade. Me diga a outra verdade, a mais pura verdade.”

“A mais pura verdade?”

“Sim.”

*

Querida Norma,

“A pura verdade”: era isso o que ela exigia, ou, talvez, implorasse.

Ela sabia muito bem qual era essa verdade, assim como eu, então isso não deveria ser tão difícil assim de ser colocado em palavras. E eu estava furioso o bastante para fazê-lo – furioso por ter de ir até lá e agir dessa forma por algo que você, Helen e eu não receberemos gratidão alguma, não nesta vida.

Mas eu não podia. Não podia dizer na cara dela, isso que eu não tenho dificuldade alguma em escrever aqui, agora, para você: A verdade é que você está morrendo. A verdade é que você já está com um pé na cova. A verdade é que você já está desamparada neste mundo e amanhã será ainda pior, e assim dia após dia, até chegar o momento em que não haverá ajuda alguma. A verdade é que você não está em uma posição para negociar. A verdade é que você não pode dizer Não.

Você não pode dizer Não para o tique-taque do relógio. Você não pode dizer Não para a morte. Quando a morte disser Venha, você deve abaixar a cabeça e Ir. Aceitar. Dizer Sim. Quando eu digo, Deixe para trás a casa que você construiu por conta própria na Espanha, deixe para trás tudo o que lhe for familiar e venha viver aqui – sim – em um asilo onde uma enfermeira de Guadalupe irá te acordar pela manhã com um copo de suco de laranja e com um largo sorriso no rosto (Que bela manhã, Madame Costello!), não faça cara feia, não bata o pé. Diga Sim. Diga, Ok. Diga, Eu estou em suas mãos. Faça o que for melhor.

Norma, chegará um dia em que você e eu também teremos de dizer a verdade, essa mais pura verdade. Sendo assim, vamos fazer um pacto? Vamos prometer não mentir um para o outro, não importando o quão difícil sejam essas palavras, e diremos então: não vai melhorar, vai ficar cada vez pior, e cada vez pior até que não seja possível piorar mais, e então acontecerá o pior?

Com amor, do seu marido,
John