O bater das asas, o alvoroço das almas e o turbilhão vertiginoso dos séculos

Excerto do ensaio  de Albert Camus”The Minotaur, or the Stop in Oran (1939)”

Encontrei esse fragmento numa busca recente por ensaios em língua estrangeira, com pretensões de exercícios de tradução literária. Descobri logo depois que essa é apenas a primeira parte do texto – que desconheço o autor da tradução. Soube de uma tradução para o português feita do francês, por Vera Queiroz da Costa e Silva, em uma edição dessa coletânea de ensaios do Camus publicado pela Nova Fronteira em 1979 com o título ‘Núpcias, o Verão”.

O Minotauro ou, A parada em Orã

Não há mais desertos. Não há mais ilhas. No entanto, ambos continuam indispensáveis. Para compreender o mundo, às vezes é preciso se afastar dele. Para servir os homens, mantê-los à distância por um tempo. Mas, onde encontrar a solidão necessária à potência, o fôlego no qual o espírito busca a si mesmo e calibra sua força? Restam as grandes cidades, onde certas condições são necessárias.

As cidades que a Europa nos oferece são geralmente repletas de ecos do passado. Um ouvido atento pode distinguir o bater das asas, o alvoroço das almas e, ainda, sentir o turbilhão vertiginoso dos séculos, as revoluções, as glórias. Recordar-se que o Ocidente foi forjado em uma série de tumultos. Não há silêncio suficiente.

Paris é um deserto para o coração, mas em alguns momentos, na altura de Père Lachaise, sopram os ventos da revolução, que subitamente eliminam aquela aridez com as bandeiras de glórias inalcançadas. É assim também em algumas cidades espanholas, com Florença, com Praga. Salzburg seria mais serena sem Mozart. De tempos em tempos soam sobre o Salzach o lamento orgulhoso de Don Juan mergulhando em direção ao inferno. Viena aparenta ser mais silenciosa; é uma infante comparada às outras, com pedras de não mais que três séculos, em uma juventude que desconhece a melancolia. No entanto Viena está na encruzilhada da História. Em seu entorno ecoam as estrondosas colisões dos impérios. Há entardeceres, quando o céu é tingido de sangue, as estátuas dos cavalos na Ring Boulevard alçam voo num momento fugaz onde as reminiscências do poder e da história podem ser claramente ouvidas, sob o comando dos esquadrões poloneses, a esmagadora queda do Império Otomano. Tudo isso não permite silêncio suficiente.

Não há dúvidas de que é apenas essa solidão que os homens buscam nas cidades européias. Ao menos aqueles com um propósito na vida. Lá podem escolher suas companhias, ficar ou ir embora. Quantos foram os espíritos que encontraram temperança entre seus quartos de hotel e as antigas pedras da Ile Saint-Louis! Não há dúvidas também que alguns morreram ali pelo isolamento. Os primeiros, de qualquer forma, encontraram suas motivações para crescerem e afirmarem-se. Eles foram sós e não estiveram sós. Séculos de história e beleza, o testemunho apaixonante de milhares de vidas já vividas que os acompanham ao longo do Sena e falam de tradição, de conquistas. Entretanto, é um determinado elã juvenil que convoca tais companhias. Há um momento na vida em que elas se tornam inoportunas. “Só nós dois!” grita Rastignac, encarando a vastidão decadente de Paris. Dois, sim, mas ainda são tantos!

Até o deserto em si adquiriu um sentido; foi inundado com poesia. Pelas lamúrias do mundo se tornou um local sagrado. Mas há certos momentos em que o coração anseia por nada além de lugares livres de poesia. Descartes, para meditar, escolheu seu deserto: a cidade mais mercantil de seu tempo. Lá ele encontrou sua solidão, o tempo e o momento para o que talvez seja o mais vigoroso de nossos poemas: “O primeiro [preceito] foi nunca aceitar coisa alguma como verdadeira a menos que eu tenha a certeza que ela obviamente é.” É possível ser menos ambicioso e ainda nostálgico. Nos últimos três séculos Amsterdam foi coberta de museus. Para escapar da poesia e reencontrar a paz das pedras, outros desertos são necessários, outros lugares sem alma e sem recursos. Orã é um desses lugares.