Nunca mais pudemos voltar para o lugar onde nascemos

“Nossa escola ficava a 12 km de nossa casa. […] Tínhamos algumas batatas, pão, carne, manteiga ou queijo cottage para a semana inteira e todos tinham os seus pequenos espaços para guardar seus pertences. […] Nunca houveram escolas de Livoniano. Apenas no dia da independência (da Letônia) o governo pagava um professor, uma hora por semana em todas as escolas. Haviam três escolas no litoral, área onde os letonianos viviam, e os nossos professores viajavam de uma escola a outra à cavalo. Não haviam livros de Livoniano. Se o professor era bom, ele dava aulas apenas oralmente. Apenas em meados de 1930 que os primeiros livros de Livoaniano apareceram. […] Os jovens não estavam interessados nos mais velhos nem no passado. Alguns deles nem imaginavam que seus avós pudessem saber a língua Livoniana. Os Livonianos viveram próximos ao litoral e às margens dos rios Daugava e Gauja. Foram grandes homens do mar e navegaram por grandes mares e rios. Grandes capitães e timoneiros. Eles estudaram todas essas coisas. Agora os velhos esqueceram todas essas coisas e os jovens não se importam mais. Os jovens sequer admitem que são Livonianos. Apenas recentemente finlandeses e estonianos mostraram algum interesse sobre os Livonianos, melhorando um pouco essa situação, dando algum suporte ao governo para que reconhecessem os Livonianos, da mesma forma que aqui no Canadá os índios foram reconhecidos como nativos. […] Durante a invasão russa, ordenaram que todos deixassem a área costeira. Centenas de soldados permaneceram na área impedindo os habitantes de fugirem ou se refugiarem no mar por algum tempo. Nunca mais pudemos voltar para o lugar onde nascemos. A pesca foi proibida e nenhum tipo de acesso ao mar era permitido. Apenas soldados russos permaneciam naquela região. Muitas pessoas vieram à Riga para nos encontrar. E como nós só podíamos ficar às margens da cidade, não conseguíamos encontrar ninguém.”

Livonianos em Congresso Fino-Úgrico em Helsinki, 1931 [Foto: Frigyes Lukinich]

Trechos da última entrevista de Grizelda Kristiina, nascida em Voye, banhada pelo Mar Báltico na costa da Letônia, a 185 km de Riga, em 19 de março de 1910. Filha de Pētõr e Lee Berthold. Escritora, poeta e professora, foi casada com Volderamas Kristinas, com quem mudou-se para a Suécia fugindo do regime soviético na Segunda Guerra. Em 1951, foram para o Canadá. No exílio, escreveu suas memórias. Foi a representante mais antiga do povo Livoniano e a última falante nativa da língua Livoniana. Foi entrevistada por diversos linguistas que pretendiam documentar a língua. Inspirada pelo padre Arvedo Celmo, Grizelda gravou fitas cassete e as enviou para escolas na Letônia. Posteriormente participou da gravação de um CD com 10 monólogos, parte de uma produção de um livro sobre. Além de suas memórias, no exílio Grizelda também escreveu poesias em sua língua nativa. O último deles um mês antes de sua morte.

A língua Livoniana é parte de um subgrupo de línguas Báltico-finlandesas, da família Fino-úgrica, das línguas da família Urálica. Apesar da semelhança, nem falantes estonianos, nem mesmo finlandeses conseguem compreender o Livoniano. Os povos Livonianos se estabeleceram às margens do Mar Báltico.

Atualmente há cerca de 40 pessoas no mundo capazes de se comunicar em Livoniano, mas todos são falantes não-nativos. Victor Berthold, um outro falante nativo, morreu em 2009. Apesar de carregarem o mesmo sobrenome, ele e Grizelda não eram próximos. Algumas fontes registram Victor como falante nativo, como Grizelda, outras, no entanto, dizem que ele era bilíngue, apenas.

Volderamas Kristinas morreu em 1990, ano da independência da Letônia, quando Grizelda Kristiina pode retornar à sua terra natal para visitar sua família.

Grizelda morreu aos 103 anos, no dia 2 de junho de 2013, em Toronto, Canadá.