Um livro como um autorretrato

Em “Infância” e nas autobiografias seguintes, Coetzee refere-se a si mesmo apenas pelo pronome “ele”. Até mesmo sua decisão em escrever sob o nome J.M. Coetzee – elidindo “John” e inserindo uma inicial no meio levando a mal entendidos sobre ele por décadas (o M. significa Maxwell, não Michael) – cria uma cortina em torno de si mesmo. Aqui nestes seus autorretratos, agora com mais de 60 anos, um certo desapego autoral é mesclado com franqueza, sinceridade e até mesmo orgulho. Vemos o adolescente John vestindo um colete de lã e uma camisa com o pescoço à mostra, bochechas coradas, com os olhos e alma repletos de tristeza. Ele se inclina para o lado e apesar de parecer frágil, olha com confiança para os anos além dele.

Em outra imagem ele posa de maneira mais adolescente. Agarra-se a uma melancolia que pode levar à genialidade ou à desgraça. O quarto é escuro e o jovem Coetzee ilumina o próprio rosto. Olha adiante, espera. Em breve ele abandonará a câmera; duas décadas depois publicará seu primeiro livro. Cada livro que ele escreverá, então, será um autorretrato.

Excerto de J.M. Coetzee’s Boyhood, in Black and White, por Jason Farago, na NYT Magazine em 16 de janeiro de 2018.