Afastar-se e pausar por um instante

Zurique, setembro de 2014
Da cozinha para sala de estar. Do quarto para o banheiro. Descer as escadas e pegar a correspondência. De casa para o metrô. Um passeio noturno. Você caminha cerca de 7.500 passos a cada dia. Se viver até os oitenta, e queira Deus que sim, dará cerca de 200 milhões de passos ao longo de toda a vida, uma centena de milhares de quilômetros. Você não se considera alguém que caminha muito, mas certamente terá circulado o globo, a pé, umas quatro vezes, pelo menos. Descer as escadas para pegar a correspondência. Do porão para a lavanderia. Sala de estar para o banheiro. Acordar no meio da noite para um copo dágua. Caminhar pela casa escura, pausar por um instante, como se lembrasse de alguém que uma vez já amou.

Nova Iorque, Maio de 2015.
Passei por lá pela última vez em 9 de setembro de 2001. Desde então, estive por perto diversas vezes – em táxis na West Street, a pé na Greenwich Street, pela Trinity Church – mas não consegui ou de alguma forma não quis ir até a praça. Treze anos se passaram. Finalmente retorno, em maio de 2015, com uma câmera como máscara. Realidade e sonho se misturam numa coisa só. Pintores como Hammershøi e Vermeer conheciam o poder deste gesto. Afastar-se para revelar o que, de outra maneira, não poderia ser visto. O sentido de se afastar. O poder de um gesto que fala sem ser falado.

Teju Cole em Blindspot. Excertos publicados em entrevista com o autor no Guardian. Tradução minha.