Amores possíveis

Num debate recente deste ciclo o tema escolhido para discussão foi o Amor. Como falar sobre o Amor sob uma perspectiva psicanalítica? E pela primeira vez, ali, o grupo, tão propenso a discussões acaloradas, debates intensos sobre temas diversos, se viu calado. Poucos correram o risco de colocar algo de si no debate. Talvez, imagino, pelo fato de o Amor ser essa dimensão tão íntima, frágil, doce, amarga e dolorosa nos caminhos de constituição subjetiva de cada sujeito. Um amigo comentou, ao final, já fora do âmbito de discussão, de um modo mais privado e íntimo, e também frio e desdenhoso, que o Amor é uma construção cultural, uma invenção humana. Perfeitamente compreensível a fala dele, visto que é um historiador. É uma perspectiva válida. O Amor como invenção humana e como linguagem que dê conta das variações afetivas e sentimentais do ser. Palavra que dê conta de um afeto tão poderoso, palavra que abarca uma infinidade de afetos e sentimentos ao longo da história humana e ao longo da história singular de cada sujeito.

Sendo invenção humana, transforma-se ao longo dos séculos. Discutido desde o Big-Bang por filósofos, artistas, escritores e principalmente pelos poetas, esses seres que se arriscam a explorar os vazios mais obscuros e luminosos da alma humana. Em O Banquete de Platão, obra-referência sobre o amor, os discursos apresentam as inúmeras dimensões dessa emoção tão plural. Em um dos discursos, Aristófanes nos brinda com o mito clássico dos seres completos, os andróginos, prepotentes e poderosos, desejantes de tomarem o lugar dos deuses e que tiveram como castigo a cisão pelas mãos de Zeus, que os condenou a seguirem desesperados pela terra em busca de suas outras metades, a fim de se completarem e retornarem a esse estado de plenitude e poder. Esta obra explicita também, a ambivalência estrutural do ser humano e os vários sentidos que o amor pode assumir como resposta aos anseios humanos. O Amor Incondicional, como lugar de adoração ao divino e ao próximo, presente em diversas religiões como laço de contato com o outro, utilizado pela Igreja Católica ao longo dos séculos para controlar e direcionar os instintos e desejos do humano. O Amor Cortês na Idade Média no qual a impossibilidade da relação e do encontro era instituída e sustentada exatamente pela falta, associadas à dor, ao sofrimento e a promessa inatingível de felicidade. O Amor Romântico, a partir do século 18, que insere na história pela primeira vez o encontro, ainda que doloroso por vezes, do ser amado com o seu objeto de amor, vertente do Amor ainda presente nos nossos dias nas artes, literatura e em todas as dimensões da linguagem.

Na constituição do sujeito, o recém-nascido é o objeto de amor da mãe. No primeiro tempo edípico, ele surge como o falo materno. Idealizado, vem ao mundo para suprir toda a falta dos pais, como uma espécie de curativo para a ferida narcísica dos dois. O bebê-falo, nesta etapa, é o recipiente de todas as idealizações maternas e é esse estágio que ele pode se constituir convocado a ser sujeito desejante, a partir do desejo do Outro, do amor materno que coloca à disposição desse sujeitinho o próprio aparelho psíquico. Na segunda etapa edipiana, percebe que já não é o falo todo-poderoso, mas que algo além dele, na imagem do Pai, atravessa o desejo materno, deixando-o de lado, até perceber que esse Pai também não é lá o Todo-Poderoso assim no terceiro tempo. Enfim… nem ele é, nem o pai tem, mas esse falo, esse objeto perdido, objeto de desejo, está inserido na cultura, está em todos os lugares… e em lugar algum. Esse período primevo é o que molda resistências, recalques. A partir dos excessos e da turbulência causada por essa passagem é que vamos definir nossos modos de ser e de nos relacionarmos com os nossos objetos de amor e de desejo ao longo de nossas vidas. Somos amados e amamos na mesma medida que fomos amados e amamos os nossos pais. É também nesse período que vamos definindo, aos poucos, nossas identificações, nossos Ideais de Eu, nossa forma de ser no mundo, as escolhas amorosas, nossos sintomas e nossas repetições.

Freud diz que ” toda análise é uma demanda de amor”. Em Introdução ao Narcisismo, nos conta que “um egoísmo forte constitui uma proteção contra o adoecer, mas num último recurso, devemos começar a amar a fim de não adoecermos, e estamos destinados a cair doentes se, em consequência da frustração, formos incapazes de amar”. Em sua conferência sobre a transferência, Freud nos diz ainda que ela pode surgir como uma demanda intensa de amor, atenção, reconhecimento. Um desejo de ser recebido como o predileto, num movimento regressivo, voltar a ser o falo, voltar a uma espécie também de não-ser. O sujeito neurótico, ainda ferido pela sua passagem pela trama edipiana, se vê às voltas, de maneiras mais ou menos intensas, a depender de como foi esse mergulho inicial na linguagem, com essa busca incessante pelo amor… do outro, ou por objetos de amor que possam apaziguar a dor causada pela queda dos céus da plenitude, como os andróginos cindidos por Zeus, no mito de Aristófanes em O Banquete.

Lacan diz que “em uma análise nada se diz além de amor”. Na transferência analítica depositamos todo o amor nesse outro que nos escuta, esse outro que ocupa o lugar de um Outro, a quem nos dirigimos e demandamos esse amor, o amor materno, pleno, onde novamente nos tornamos o falo todo-poderoso, aquele que preencherá nossa casa e consequentemente nos trará de volta a sensação de completude narcísica, apaziguar a dor de nossa ferida primordial. Lacan nos diz ainda que “aquele quem eu suponho o saber, eu o amo”. O sujeito suposto saber como objeto de amor. Aquele a quem buscamos em nossas fantasias infantis e primitivas, em busca de respostas, em busca do objeto para sempre perdido, o objeto a, causa do desejo, que nos completará e nos dará sentido. Lacan também nos diz que “não há relação sexual”, pois de Dois não se faz Um. O gozo incestuoso, o retorno à plenitude narcísica é impossível. O amor como “paixão ignorante do desejo, impotente e recíproco, pois ignora que é apenas o desejo de ser Um, que nos conduz ao impossível de estabelecer a relação dos dois sexos.” Como uma das três paixões, entusiasmado, intenso e desenfreado, nos move em direção a algo ou a alguém. Ao lado da paixão pelo ódio e pela ignorância. A primeira visando o apagamento do que ou quem se odeia, o apagamento da diferença, aqui percebida também como uma forma de plenitude, de escapar de algo que nos retire dessa posição especular e narcísica; e a segunda que busca aplacar o conhecido ou a possibilidade de sua existência, na forma de um “não quero saber nada disso.”

Há ainda, de acordo com Lacan, uma relação de amor possível, mais digna, que reconhece o outro, a própria castração e a castração do outro/Outro. Como sintoma que supre essa ausência da relação sexual pois “o que vem em suplência à relação sexual é precisamente o amor”. Diz-se que em análise a função do analista é se abster, não interferir no discurso do analisando, deixar vazio o espaço para o desejo, para que se convoque, por essa fala nesse vazio de falta, o desejo do analisando. Ele se abstém, e se coloca também numa posição de objeto, objeto de amor, desejado, que assume várias formas, faces, personagens e desejos também. Jacques Allain Miller em um artigo sobre o desejo do/e analista, volta à Lacan para nos dizer que “torna-se analista pois não se pode fazer outra coisa […] quando se percorre outros discursos e se retorna ao discurso do analista, pois todos os outros parecem débeis”, que esse desejo “é a falta de algo melhor, a falta de deixar-se seduzir pelas ilusões de outros discursos”. E aqui, imagino, podemos inserir a insuficiência do discurso amoroso, multifacetado e infinito.

Sim. O amor como invenção e suas funções diversas, ao longo da história e na psicanálise. Uma verdade possível dessa invenção, é, como dito no início deste texto, que ela surge na tentativa de designar e compreender algo muito maior que nós, esse desejo inconsciente que nos governa e move, que muitas vezes nos escapa e atormenta, nos arrasta e puxa em direção à vida, nesse desejo de completude, de sentido. Um grande enigma, esse que o neurótico busca por meio de palavras na clínica: por que amo dessa ou daquela forma? por que não amo? por que não sou amado? Laço fundamental de constituição subjetiva, pelo qual lançados ao mundo e por meio do qual moldamos nossa capacidade de nos relacionar com a realidade, com os objetos, o nosso gozo, com o outro e o Outro. Pode ser tudo isso, e pode ser mais. Sendo invenção da linguagem, como enigma a ser decifrado, pode assumir inúmeras formas, transformado e reinventado. Reinvenção inclusive inerente ao próprio processo de análise, onde cada sujeito precisa se haver com seus conflitos, interdições, desejos e desejos interditos. Reinventar seus circuitos de gozo e desafixar-se de modos que amar que ainda estejam atrelados àquela estrutura primeva sob a qual fomos ensinados a amar, em alguns casos prejudicial, sofrível e limitadora. Possibilitar ao sujeito um novo olhar sobre a vida, sobre sua relação com o mundo e os seus objetos de amor, assumir novas posições, implicado no seu desejo, em sua mais luminosa singularidade. Atravessar essa fantasia primordial, perceber a impossibilidade dessa plenitude, pode mostrar ao sujeito que se Um Amor é impossível, todo Amor é possível.

São muitas as formas de ver e sentir o amor. Numa entrevista recente ao jornal O Globo, o poeta carioca Carlito Azevedo, nos deixa um trecho belíssimo, brilhante e caloroso, sobre uma visão possível do amor: “O amor é única coisa que importa no fim das contas. É a face mais luminosa da aventura do espírito humano na Terra. O amor gerou Clarice Lispector. O amor gerou Spinoza e Nina SImone. Quer se trate do amor à verdade, ao saber, ou do amor que se dá entre duas pessoas, quem não se deixou tocar por esse sentimento se tornou uma versão diminuída e cretinizada do humano. […] O que amamos de verdade é o que gostaríamos de salvar da aniquilação que nos espera a todos, aquilo que contrabandearíamos para depois da morte, para depois da lavagem cerebral do paraíso, caso se confirme a remotíssima hipótese de que algo de nós sobreviva ao caniço pensante de Pascal”

Referências:

Haddad, Gisela. Amor. Coleção Emoções. Duetto Editorial, São Paulo, 2010.
FREUD, S. (1914-1916b). Introdução ao Narcicismo. In: FREUD, Ensaios de Metapsicologia e Outros Textos. 1914-1916. São Paulo: Cia das Letras, 2010.
___________. (1915) Observações sobre o amor transferencial (Novas recomendações sobre a técnica da psicanálise III). Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976, 205-223. (Edição Standard Brasileira, Vol XII. )

LACAN, Jacques . (1962-63). O seminário, livro 10: a angústia. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
__________. (1964). Posição do inconsciente. In: LACAN, J. Escritos. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, pp. 843-864.
__________. (1964). Do “Trieb” de Freud e do desejo do psicanalista. In: LACAN, J. Escritos. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, pp. 865-868.
__________. (1964). O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Versão brasileira de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.
__________. (1972-73). O Seminário, livro 20: mais ainda. Versão brasileira de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.
Jornal O Globo. Entrevista com Carlito Azevedo, autor de ‘Monodrama’. 02/01/2010. Disponível em:
http://blogs.oglobo.globo.com/prosa/post/entrevista-com-carlito-azevedo-autor-de-monodrama-254124.html
MILLER, Jacques-Allain. “El deseo de ser psicoanalista es un deseo del tipo moneda falsa” in Jacques-Alain Miller: Sutilezas analíticas, Buenos Aires, Editorial Paidós, 2011, página 40.