O espelho difuso n’O Assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford

“O Assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford” é um filme norte-americano lançado em 2007, dirigido por Andrew Dominik, com Brad Pitt no papel de Jesse James e Casey Affleck interpretando Robert Ford. Baseada em uma história real, é um faroeste denso, com uma narrativa lenta e pouco convencional para o gênero – comumente associado à cenas de ação, perseguições e momentos de violência explícita. Aqui, pelo contrário, a trama se desenvolve sobre aspectos mais subjetivos a respeito da relação entre os dois personagens citados no título, cuja construção já nos entrega logo de cara o grande ato final da história e nos indica a característica fundamental do personagem de Robert Ford: covardia.

Jesse James é apresentado no filme como a lenda que é, mas também como uma conotação mitológica, sobre-humana, dotado de sentidos aguçados e capaz de captar coisas que meros mortais são incapazes de perceber. É interessante notar essa posição de Jesse no contexto da narrativa como sendo o líder da horda, na imagem de um pai, aquele que determina a lei e está acima de todos. Bob, um jovem de 19 anos, participa pela primeira vez de um assalto a trem com o bando de Jesse. Desde o início de sua aparição, percebem-se características em seu comportamento que se desdobram em uma constelação de afetos sintetizadas no adjetivo que o determina no título. Sempre com uma fala e cabeça baixa, olhos distantes, peito fechado, numa posição de inferioridade, como um garoto acanhado e envergonhado ao pedir para ser visto e aceito. Há na narrativa traços que ilustram conceitos relacionados ao narcisismo como identificação, relação objetal, fantasia, na relação especular com o outro, em demandas relacionadas à reconhecimento, além de relações de inveja, gratificação e destruição/introjeção do objeto.

Bob é jovem, inexperiente e idolatra Jesse James desde a infância, por ler e se admirar com as aventuras contadas em histórias em quadrinhos escritas sobre o lendário fora-da-lei. Bob quer fazer parte do grupo e pede de maneira acanhada à Frank, irmão de Jesse, que o deixe fazer parte do bando oficialmente. Atribui a si qualidades, se diz especial, diz que pode e quer ajudar. Tem uma imagem de si frágil, não consegue reconhecer-se e espera esse reconhecimento do outro. É ignorado e tenta falar com Jesse, mente sobre a conversa com Frank, ao que também é ignorado por Jesse e envergonhado frente aos outros do grupo, que também o deixam de lado, por ser inexperiente, por ser apenas um garoto. Bob não é visto e nem aceito.

Após o assalto, os homens que participaram do roubo ficam alguns dias na casa de Jesse. Em uma noite, na varanda, Bob tenta se aproximar de seu ídolo que fuma um charuto. O garoto acende um também, mimetiza Jesse. Fuma de forma meio atrapalhada, ao que ouve “você não precisa fumar se não quiser”. Ele sente vergonha. Joga o charuto fora e ainda é questionado por Jesse se sabe que “todas aquelas histórias sobre mim são inventadas”. Ele diz “sim, claro que eu sei”, como se quisesse mostrar que não era apenas uma criança que acredita em histórias em quadrinhos. É o início de uma identificação com seu herói e também o começo da ruína de sua fantasia. Mas a identificação aqui passa por um momento interessante. Para além da mera admiração no mundo da fantasia, ele é confrontado com a imagem do outro frente a si mesmo. Não sabe como se comportar e se sente frustrado pelo paulatino desmoronamento de seu imaginário relacionado a Jesse James.

Após alguns dias Jesse manda todos embora, com exceção de Bob, que é escolhido por ele para o ajudar em uma mudança. O garoto se sente especial e passa algumas semanas na nova casa, como um novo membro da família. Nesse ponto a narrativa tem uma característica muito peculiar. Se afasta e eleva o discurso a uma outra dimensão. A relação entre os dois personagens se torna mais abstrata e subjetiva, com imagens mais saturadas e distorcidas, como um espelho difuso que coloca os dois personagens em perspectivas distintas. Jesse é o centro da narração, vemos a forma como ele se coloca na comunidade, na família. Jesse é visto. Bob é segundo plano, é quem vê, observa e assimila todos os trejeitos de Jesse, roupas, fala, cacoetes, “como se estivesse preparando uma imitação”, diz a voz em off. Na sequência há um ponto crucial. Bob se aproxima da soleira da porta onde Jesse se banha e observa. Sentindo a presença, Jesse pergunta: “Eu não entendo. Você quer ser como eu ou você quer ser eu?”. O garoto, envergonhado, sai. É mandado de volta à fazenda da irmã. Nota-se uma imagem diferente de Bob. Ele compra roupas novas, se veste como Jesse e se vê no espelho com confiança, quer ser como ele, constrói uma imagem de si a partir daí.

Seguem-se outros momentos onde o encontro entre os dois é sempre permeado por essa relação especular e também sobre a idealização imaginária de Bob, que enumera a Jesse em um jantar coisas em comum entre os dois, como eles são parecidos. Atributos físicos, relações de parentesco e até mesmo números de letras em nomes são pontuados. Jesse se incomoda, como se sentisse a própria imagem também ameaçada pela imagem do outro. Faz pouco caso, ignora e não reconhece-se no garoto, que enfurecido, se diz cansado de todos sempre zombarem dele por causa disso. O que era até então uma relação saudável com a imagem do outro, de admiração, onde ele se reconhecia e constituía uma imagem satisfatória de si, e também de espera por uma espécie de gratificação pelo outro, se torna uma relação de frustração. Acuado e rejeitado de todas as formas possíveis esse sentimento o leva à raiva e ao desejo de destruir a imagem de Jesse. Ele decide então agir entregando comparsas e conspirando com a polícia para a captura do seu ídolo.

Trabalhando em um mercado, recebe a visita de um investigador em busca de informações sobre o paradeiro de Jesse. Questionado se está realmente disposto a arriscar a própria vida para entregá-lo, Bob diz: “Eu nunca fui ninguém na vida. Sempre fui o caçula. Era pra mim que faziam promessas que nunca cumpriam. Desde que eu era criança, Jesse James foi sempre reverenciado. Eu só tenho essa oportunidade e vou agarrá-la.” A cadeia admiração/inveja, raiva e destruição se consolida aqui nesta fala. Ele nunca foi ninguém. Sempre esperou de outro o reconhecimento e gratificação. Não obtendo isso, a única maneira que ele encontra de sair desse impasse é destruindo esse objeto. Eliminar a possibilidade de comparação frente à imagem de um outro onde ele já não mais pode ser reconhecido.

Jesse e Charlie se preparam para um novo roubo e Bob é convidado para juntar-se a eles. O garoto percebe aí uma chance de concretizar seu plano.

Dois momentos nessas sequências que antecedem o grande ato de Bob chamam a atenção, novamente, para a relação especular entre os dois personagens, dessa vez colocando Bob em uma posição ainda mais infantil do que as anteriores. Jesse segue cada vez mais arisco, comportando-se de maneira agressiva e estranha, como se sentisse o perigo próximo. Há uma cena onde ele estão em uma sala, Jesse sentado com as pernas esticadas em um sofá longo, uma espécie de divã. Bob está sentado no chão, na ponta, mexendo com brinquedos dos filhos de Jesse. Jesse o trata como criança, o chama pra perto, mexe em seus cabelos como se brincasse com o próprio filho. Logo após o ameaça com uma faca por brincadeira, amedrontando o garoto, mas também deixando-o cada vez mais disposto a realizar o seu ato, com medo de em algum momento ser morto por Jesse. Inevitável observar aí uma outra ilustração da discrepância entre a posição entre os dois. Jesse adulto, o Pai, líder; Bob infantil, demandando aceitação, se sujeitando ao outro.

Na manhã do assassinato, Jesse vai a missa com a família e Charlie. Bob fica em casa. Sozinho, passeia por todos os cômodos, observa todos os objetos de Jesse, suas roupas, bebe da água de seu copo na escrivaninha do quarto, cheira o perfume da fronha na cama, se deita nela, acaricia partes do corpo imaginando os ferimentos a bala de Jesse em si mesmo, se imagina como Jesse, com 34 anos, fantasiando todas as maravilhas que ele poderia ter vivido. Se imagina em um caixão. É como se com a aproximação da morte de Jesse, Bob sentisse que cada vez mais poderia ser ele. Mas sê-lo numa dimensão apenas imaginária. Introjetar em si essa imagem destruindo-a.

No momento do grande ato, Jesse já sabe que foi traído e pode ser morto. Abdica de suas armas e na mesma sala onde estão os dois irmãos, decide limpar um quadro na parede, como se quisesse testar Bob, mesmo sabendo que poderia ser morto. Na hora do disparo, mais uma vez o espelho reaparece. Jesse vê Bob de arma em punho. Bob vê Jesse. Enfim o garoto consegue realizar o seu feito. Logo após, desmonta no sofá. Não tem forças para se manter de pé, como se desmoronando a imagem de Jesse a sua própria imagem também tivesse sido atingida. Fica pasmo e não sabe o que fazer, até que Charlie o carrega para fora de casa para fugirem.

O desenrolar da morte de Jesse também é marcado por outros pontos interessantes. Lendário como é, a notícia e as imagens de seu funeral correm o país. Há uma comoção nacional sobre Jesse, ao passo que, mais uma vez, Bob é esquecido, sua imagem se torna opaca em relação ao acontecimento. Assim, Bob decide montar um espetáculo com seu irmão, onde seu grande ato é apresentado em teatros. Bob interpreta a si mesmo e Charlie, Jesse. Esse espetáculo se torna significativo, pois a imagem de Jesse ainda se faz presente, pelas mãos de Bob. Ele mantém o rito final, o assassinato, como repetição. A relação com a imagem de Jesse se mantém viva, pois é apenas a partir dela que ele pode ser reconhecido e consequentemente se reconhecer. Ele continua sendo ninguém. É a imagem de Jesse James que o mantém.

Após algum tempo em cartaz ele deixa de ser reconhecido como uma espécie de herói (pelo governo e pela polícia) e passa a ser visto como um covarde, um traidor (pelo povo). Um ressentido que, não podendo implicar-se no próprio desejo e se sujeitando sempre à imagem do outro.

Referências Bibliográficas
KLEIN, Melanie. Inveja, Gratidão e outros trabalho. Rio de Janeiro. Imago: 1991.

LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. Vocabulário da psicanálise. Tradução de Pedro Tamem. São Paulo: Martins Fontes, 2001

Lacan, J. (1998). O estádio do espelho como formador da função do eu. In: J. Lacan, Escritos. (V. Ribeiro, trad.; pp. 96-103). Rio de Janeiro: Zahar. (Original publicado em 1966).

Vídeo-aula: Estádio do Espelho | Christian Dunker (youtube)