porque eu almoço todos os dias no mesmo lugar há mais de dois anos

As pessoas me questionam sobre o fato de eu almoçar sempre, sempre, sempre no mesmo lugar – são raras as variações dessa atividade há uns dois anos, já. No contexto da relação que mantemos, meus amigos, colegas de trabalho e até mesmo a Luiza, minha esposa, atribuem essa teimosia e insistência na rotina ao fato de ser taurino – excessivamente taurino. Em alguns momentos reclamam (amigos e colegas) que eu nunca almoço com eles, que sou chato e sistemático, que sempre prefiro sair sozinho. Confesso que sim, tenho essas tendências a manter certos rituais, me colocar em movimentos que me são confortáveis e confesso também que gosto de almoçar sozinho. Ou gostava, porque percebi que eu nunca almoço sozinho, mesmo quando vou almoçar sozinho.

Há alguns dias tenho pensado nessa relação com a rotina e os lugares comuns nesse ritual aí. Tenho pensado inclusive em razão de um comentário feito pelo Rodrigo Petrônio sobre um filme chamado Paterson, onde ele diz sobre esse filme que “Fala da beleza do cotidiano que não vemos por estarmos muito ocupados em espetacularizar a beleza. Fala das variações da rotina que não vemos por estarmos ocupados demais tentando fugir da rotina.” Esse é um ponto que me tocou muito nesse comentário e que tem a ver com a gênese das minhas relações com esse caminho, esse lugar onde eu costumo ir e onde hoje, me integro. Uma espécie de refúgio que encontrei em um momento da vida onde eu não conseguia nem mesmo me encontrar.

Ao pensar nessa relação fui aos poucos percebendo a riqueza dessa rotina entediante aos olhos dos outros. A minha resposta aos questionamentos sempre foram: “uai, a comida é boa, é barata, o atendimento é excelente e o lugar, calmo.” Claro que é isso, mas não é só isso. Além da Lourdes (Lu) e seu amor com a comida servida ali, sua preocupação com o atendimento e além, o cuidado, “comeu bem, tá satisfeito?” – como uma grande mãe, que alimenta e pretende o bem estar de todos, acolhe, e que eventualmente surge com uma surpresa levantando a voz lá da cozinha: “adivinha o q tem de sobremesa hoje?”, e é sempre uma surpresa, e uma delícia. A Val e a Michele, hoje Alessandra e seus quitutes de nata, sempre solícitas e atenciosas, os filhos da Lu e o Fêlix, marido, zelador de um condomínio próximo e que ajuda no atendimento no horário de seu almoço.

Há ainda uma espécie de comunidade ali, com personagens das mais diversas, suas histórias e particularidades, laços que foram aos poucos se formando e se fortalecendo. Pessoas que inseridas ali, nessa rotina e repetição, se conheceram, realizaram trocas e aproximaram-se umas das outras. Tem a dona Lourdes que não é a Lu, senhora sempre elegantíssima e pontual, pianista, realiza um sarau em pinheiros uma vez por ano. Às vezes nos sentamos juntos, falamos sobre o clima e as roupas que não secam, elogiamos e trocamos impressões sobre a comida, sobre a vida e também em alguns dias sentamos lado a lado, almoçamos sem trocar uma palavra sequer; há a Benê, professora de inglês, que todos os dias vai com a adorável Iracema, sua mãe, que aos 96 anos mantém uma jovialidade e um sorriso no rosto que é uma espécie de raio de sol ali na rua Sebastião Velho, capaz de alegrar o dia de qualquer um. O Marcelo do Acervo Brutto (um antiquário na rua Simão Álvares) e suas histórias maravilhosas, cuja falta é sentida todos os dias agora que não mais pode aparecer por lá pois está envolvido em projetos de paisagismo. O Henrique, primeiro mineiro surfista e oceanógrafo que conheço, amigo recente com quem partilhamos opiniões sobre sociedade, política, filosofia e críticas ao ambiente acadêmico, – além das aulas sobre a fauna marinha e projetos em comunidades pesqueiras -; eu disse partilhamos, pois aí completa o trio de conspirações políticas o Willian, psiquiatra e psicanalista há uns 30 anos, com quem hoje, além de falar sobre o caos político recente no brasil, trocamos histórias sobre linguagem e a riqueza dos dialetos regionais (meu mineiro e o paulista caipira piracicabano dele) e como essa chave, essa memória afetiva é acionada a cada contato com o lugar, ou com as pessoas desse lugar.

Esses são os principais, os mais próximos à mim. Há outros, tantos, em relações diversas e inseridas ali. as meninas de uma contabilidade próxima, que em dias vêm e em outros vão apenas buscar a comida. Aasais que aparecem eventualmente, numa frequência menor, mas sempre com uma certa regularidade. Há aquelas que aparecem no sebo do Ricardo (Desculpe a Poeira), compram livros e aproveitam para almoçar, ou não. Os catadores que vão vender livros e os livros que me encontram toda vez que teimo e ‘dar uma olhadinha para ver se encontro algo interessante’.

Fora tudo isso, caminhar pelas ruas que se situam entre Teodoro Sampaio e Artur de Azevedo é caminhar por um outro universo. É impressionante a diferença dessas pr’aquelas. Sinto em alguns momentos como se caminhasse em uma cidade do interior. Tranquilas e arborizadas, me permitem ainda capturar e colecionar pequenas folhas secas. Me permitem também ler caminhando. observar as personagens dessa rua também – o vigia a quem trato como chefe, o sapateiro que anteontem descobri ser Jorge, a dona de um bistrô meio hipster, onde rolou um entrevero com a Eletropaulo. os gatos ao sol no jardim de uma casa ao lado de um centro de yoga. As janelas dos apartamentos de uns predinhos no caminho, por onde saem de quando em quando notas de alguém estudando piano. e ainda perceber a intensidade da energia das relações adolescentes na saída da Fernão Dias. As reuniões dos grupos ali, isolados uns dos outros mas integrados à um mesmo espaço. “tio, tem uma seda aí?”

Pinheiros é um lugar com uma infinidade de lugares para comer. Japoneses, italianos, mexicanos, havaianos, árabes. Acho incrível e eventualmente vou nesses também, beeem de vez em quando. Adoro descobrir e experimentar esses novos sabores. E agora lembro de uma frase que disse há alguns anos a um amigo em outro contexto, e que vale pra esse também: “comida exótica é uma delícia, mas pra mim é o arroz feijão cotidiano que sustenta a vida.”

É isso. A comida é ótima, o lugar idem e, além disso, ela, a comida, articula todos esses encontros e relações que nos transformam e possibilitam falar da beleza desse cotidiano que em alguns momentos não vemos por estarmos muito ocupados em espetacularizar a beleza. Falar das variações da rotina que não vemos por estarmos ocupados demais tentando fugir da rotina.

ps: meu top five dos pratos da lu:

1 – frango com quiabo e polenta (terça-feira)
2 – bife a milanesa (todos os dias)
3 – feijoada (quarta e sábado)
4 – virado a paulista (segundas)
5 – macarronada com frango assado (quintas)