A palavra e o sujeito como esfinge de si mesmo

“A psicanálise é um método de observação do obscuro”.

Começo este texto com essa afirmação, dita em uma de nossas aulas, por ela ter me apresentado uma compreensão muito mais profunda e complexa do que até então eu imaginava ser psicanálise. Desde o início da formação (talvez mesmo antes), passavam pela minha cabeça diversas possibilidades sobre o que poderia ser apresentado neste trabalho (ou em qualquer outro futuro), sobre os paralelos que poderiam ser feitos com as minhas áreas de interesse e de que forma eu poderia costurar isso de uma maneira que fosse significativa, para mim. Existia uma expectativa de encontrar durante o percurso, material para corroborar aquilo que já residia em mim, apenas como confirmação disso que eu já imaginava saber. Um ingênuo. Já nos meus primeiros contatos com a instituição, durante conversas e entrevistas, encontrei subsídios conceituais que deram início a uma paulatina fragilização das bases que sustentavam essas minhas projeções e aos poucos fui compreendendo, na prática, o que a afirmação que abre esse texto também significa. Ao reconhecer a minha ingenuidade, segui algumas orientações que me foram úteis nas decisões sobre o que escrever, sobre o que falar, considerando critérios inscritos dentro de uma perspectiva psicanalítica: o que é significativo para mim e me afeta a ponto de fazer com que eu invista energia nisso? Minha atenção se volta, então, não apenas para algo externo a mim, mas a mim mesmo em relação ao que me fosse apresentado, direta ou indiretamente, durante o percurso. Uma espécie de “deixar-se levar”, de maneira atenta, onde esses contatos pudessem me levar a lugares ainda não percorridos, num processo de descoberta e aprendizado. Os pilares já fragilizados, que sustentavam uma edificação estabelecida deram lugar a um campo aberto, onde a terra estivesse sendo continuamente revolvida para plantio, para um germinar de novas ideias. Essa movimentação tem também como consequência trazer à tona o que ainda estava intocado, quieto, distante da luz.

Os conteúdos teóricos apreendidos através da leitura e aulas nestas últimas semanas tem sido importantíssimos, para a descoberta do surgimento da psicanálise e suas origens, para a compreensão de como se dão as dinâmicas das pulsões dentro do aparelho psíquico e de como elas podem se transformar em determinadas afecções e sintomas. No entanto, o que tem sido mais significativo, e isso se conecta também a uma característica empírica percebida como fundamental em psicanálise, tem sido as experiências em horas clínicas, no exercício de escuta e no contato com colegas, suas dúvidas e percepções sobre o dispositivo psicanalítico. E é em uma dessas ocasiões que surge um ponto que passa a ser central nas minhas reflexões para este trabalho: a palavra. Foi um momento epifânico até, quando em uma das conversas sobre possíveis conflitos com o analisando na prática clínica, onde a colega convidada para nos orientar levantou uma questão e de modo muito simples direto, aponta para o próprio braço, depois puxa suavemente a pele e nos pergunta: “o que é isso, gente?” – ao perceber o silêncio como resposta, emendou “é palavra! – nós damos palavra a tudo.” Seguiu-se a conversa e a partir desse momento, falamos sobre como a palavra é esse instrumento poderoso, existe para nos comunicarmos, para nomearmos coisas e darmos sentido a elas, nos colocarmos em contato com o outro a partir de nós mesmos. Essa característica da palavra, apesar de aparentemente banal, nunca havia me ocorrido dentro de uma perspectiva que se relacionasse à clínica. Apesar de já ter notado, em minha própria análise, o poder da fala no processo terapêutico e ter ouvido definições de psicanálise como “cura pela fala”.

Freud em uma de suas “Conferências Introdutórias sobre a Psicanálise” discorre sobre a dimensão ‘mágica’ das palavras e da sua importância como elo entre médico e paciente: “Por meio de palavras uma pessoa pode tornar outra jubilosamente feliz ou levá-la ao desespero, por palavras o professor veicula seu conhecimento aos alunos, por palavras o orador conquista seus ouvintes para si e influencia o julgamento e as decisões deles. […] Nada acontece em um tratamento psicanalítico além de um intercâmbio de palavras entre o paciente e o analista […] palavras suscitam afeto e são, de modo geral, o meio de mútua influência entre os homens”. O contato com esse texto de Freud, posterior àquela hora clínica, passam a circular com uma intensidade ainda maior meu interesse pela palavra. Passo então a observar a palavra, e encontrar durante meu cotidiano, em leituras não relacionadas aos estudos da psicanálise, registros que se associam à sua importância e dimensão ‘mágica’.

O primeiro deles, em uma passagem significativa no romance “A desumanização”, do português Valter Hugo Mãe, onde a personagem Sigridur, pré-adolescente, grávida, às voltas com o luto pela irmã e conflitos familiares de toda a sorte, relata um momento, onde junto ao namorado, se voltam aos livros, dando atenção especial às palavras:

[…]” e voltávamos aos livros, a ler tudo outra vez e só reparar nas palavras. […] Prestávamos atenção às palavras para saber como eram ditas as coisas. […] Nós, inspecionando muito rigorosamente, achávamos melhores aqueles que falavam como se inventassem modos de falar. Para percebermos melhor o que, afinal, era reconhecido, mas nunca fora dito antes. Os melhores livros inauguravam expressões. Diziam-nas pela primeira vez como se as nascessem. Ideias que nasciam para caberem nos lugares obscuros da nossa existência. Andávamos como pessoas com luzes acesas dentro. As palavras como lâmpadas na boca. Iluminando tudo no interior da cabeça.”[…]

E por acaso (?), cai em minhas mãos, 10 anos após sua leitura, o trecho do conto “As Pragas” de Moacyr Scliar, onde mais uma vez a palavra aparece, dessa vez em sua ausência, na forma de não-dito, onde as filhas não ousam contestar as atitudes do pai relacionadas à resolução de problemas domésticos:

[…]“Isso não ousei perguntar. Nem ela falou a respeito. As tais partículas integraram-se ao rol das coisas embaraçosas, não verbalizadas, que existem em todas as famílias, numas mais, noutras menos. Palavras não pronunciadas pairam nos lares como espectros; sobretudo nas noites opressivas em que não se consegue dormir em que todos, olhos abertos, fitam um mesmo ponto no forro da casa. O lugar exato em que, no sótão, está o esqueleto insepulto).”

E um terceiro tropeço na palavra, agora em forma de poesia, ocorre anos depois de um primeiro e desde então um constante contato, pela música “Verso Preso” do músico e compositor pernambucano Siba, em seu disco Avante, de 2012:

Um verso preso é um tiro / Que a arma não disparou
Pois o gatilho emperrou / E o tambor não deu o giro
Se escuta só o suspiro/ De alguém que escapa assombrado
E o atirador, frustrado / Remói a raiva no dente
Sentindo o mesmo que sente/ Alguém que foi baleado

Esses três momentos intensificaram as minhas reflexões sobre a palavra no dispositivo psicanalítico. A percepção do poder daquilo que era reconhecido e em algum nível sentido, parte do nosso cotidiano e que nos move, mas nunca fora dito antes. Palavras que nascem para iluminar o obscuro (Inconsciente), dando forma a espectros opressivos, tornando-os concretos e reais, desembaraçando as tramas do não-verbalizado acumulado nos sótãos do aparelho psíquico. A arma que dá destino à munição e livra o sujeito da frustração e do sofrimento. “O objetivo é que a palavra surja”. Mais uma das observações marcantes das horas clínicas e que conecta-se fortemente àquela na abertura deste ensaio. A energia psíquica, vinda do Inconsciente, rompendo a barreira do recalque e encontrando destino na palavra e em todo o universo simbólico da linguagem. Seja através de atos falhos, chistes, sonhos ou através da associação livre na clínica. Não encontrando palavra, essa energia acumulada e carregada de intensidade escapa, passa direto pela estrutura do aparelho psíquico e dá lugar à dor, à angústia e ao sofrimento. Mas a palavra pela palavra talvez não basta para aliviar sintomas e compreender conflitos. Essa é uma das suas funções. Além disso, penso, ela precisa de sentido. E é interessante notar sentido como significação, mas também como direção. A palavra em seus diversos sentidos. Há alguns dias, em conversa com um amigo tradutor, ele tece um comentário sobre seu ofício e que noto pertinente para a trama que vem se desenvolvendo em mim por meio da palavra. Ele diz que “para traduzir, a gente precisa negar o próprio ego o tempo todo, desaparecer para dar voz ao outro, ser generoso com ele, conosco, com o corpo.” Uma das grandes questões em horas clínicas tem sido o papel do analista, despido de seu próprio Eu na escuta clínica. É uma preocupação compreensível, natural e saudável, considerando que ainda estamos em início de formação – creio que um desafio hercúleo, mesmo para aqueles já com décadas de clínica. Esse receio de que os conflitos do analista se sobressaiam aos do analisando durante o processo, possam levar a intervenções que sejam prejudiciais de alguma maneira para o sujeito. Me retorna agora aos pensamentos outra afirmação durante uma recente conversa em hora clínica: “eu nunca escuto o outro, eu me escuto processando o que o outro disse”. Mais um fio que é puxado e estende a trama pela palavras, deixando-a ainda mais complexa. Dentro desse contexto clínico de escuta, perceber essa característica também é importante, pois despir-se do próprio Eu talvez seja impossível, mas somos instados a estar atentos e decidir o que fazer com isso – seja na clínica em contato com o analisando, seja em própria análise. Esse fazer, me parece agora, sob esse ponto de vista, uma forma de tradução. O analista surge não como tradutor direto do sujeito na clínica, e sim como aquele que sustenta um dispositivo que permita ao próprio sujeito fazer a tradução de si mesmo. O analista propõe um enigma e o sustenta para o sujeito que então se vê como Esfinge de si mesmo. Confrontado com seus próprios enigmas, decifrando-se para não ser devorado. E a palavra então aparece como instrumento nessa tradução de conteúdos inconscientes, reconhecidos mas nunca ditos antes. Para dar forma e trazer à consciência Isso que por vezes atormenta e outras escapa, em alguns momentos (vários?) sem a nossa anuência. Aparece para nos auxiliar em um gerenciamento de descargas de energia psíquica, manifestadas até então por meio de afetos.

Referências:

FREUD, Sigmund. Conferências Introdutórias Sobre Psicanálise, Vol. 15 – (Partes 1 e 2) (1915-1916). Editora Imago, 1996.
MÃE, Valter Hugo. A Desumanização. 1ª edição. São Paulo: Cosac Naify, 2013. 232 Páginas. Valter Hugo Mãe. Cosac Naify, 2013.
SCLIAR, Moacyr. Contos Reunidos. 1ª Edição. São Paulo. Companhia das Letras, 1995.
SIBA. Disco Avante, 2012. Fina Produção / Mata Norte Gravadora.