o garimpo de fotografias esquecidas num sábado chuvoso pela manhã

Tenho um grande fascínio por fotografias antigas. Quem me conhece, sabe disso. Aliás, penso que todos de alguma forma tem esse mesmo fascínio. Quem se conhece, talvez saiba disso. Quem me conhece também sabe que essa cachaça acabou me levando a desenvolver esse trabalho aqui, também disponível no Facebook. Quem não me conhecia, agora sabe e de certa forma também me conhece.

Há algum tempo venho acompanhando uma categoria deste blog, chamada Found Photos, que é uma coletânea de fotos encontradas em vendas de garagem, mercado de pulgas, feiras de cacarecos, selecionadas pelo fotógrafo Dave Schubert, desde 2013.

Eu sempre gosto de ver estas imagens. Recomendo que você as veja também, se você se conhece o suficiente para descobrir que sabe gostar de coisas assim. Eu pretendia começar uma busca similar, no entanto não sabia por onde e tão pouco havia pesquisado, até que esbarrei com uma porção delas numa banca da Pça. Benedito Calixto, em Pinheiros.

Hoje* fui lá, pela primeira vez, começar essa série que batizo de Garimpo.

Percorri algumas barraquinhas sem sucesso, até encontrar a primeira, onde uma senhora muito simpática me apontou o álbum. Fiquei alguns minutos ali, folheando e olhando com cuidado. Perguntei se eram da mesma família, mas ela não sabia responder, dizia que apenas tinha recebido o material em alguma leva de bugigangas que comprou. Em maioria eram fotos de família. Identifiquei o mesmo senhor em várias delas, o que me fez pensar ser, sim, da mesma família, o álbum. Algumas fotos de casamento, outras com nenhuma relação com as demais. Fotos de turmas de colégio e até um senhor falecido em 3 de janeiro de 1987. José da Silva, estava escrito no verso.

“Se você levar um monte, faço mais barato”, ela disse – eles sempre dizem. Selecionei algumas. Elas geralmente custam 5 reais cada.

 

Na próxima, um argentino e uma japonesa me permitiram, após abordagem amistosa, fuçar os dois pequenos maços expostos em meio a diversas outras coisas à venda. Muitos postais. Não me interessavam. Em meio a esses, haviam dois álbuns bem peculiares. Um da Igreja Nossa Senhora do Carmo em Salvador: bem caprichoso, encadernado com cordão, capinha etc; um belo registro da igreja. Quase levei. O outro, similar ao da Igreja, mas com fotos de Poços de Caldas, em preto e branco, daquele tipo com matizes em duas cores (verde e rosa), meio que para simular fotos coloridas. Bem pequeno (4x2cm), com uma capa em papelão azul, as figuras se conectavam umas às outras por fitinhas adesivas rosa, permitindo que fossem guardadas no que se tornou um livreto sanfonado. Deles levei 5. O argentino, ao perceber meu interesse quis porque quis que eu levasse o álbum da igreja. Não foi dessa vez. “Religião não vende muito bem por aqui, né?”. Não entendi.

Ei-las:

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Passei por mais algumas pessoas, perguntando se tinham material similar e sempre ouvia o mesmo: “fotos antigas? até tenho, mas tá no depósito, a gente quase nunca traz pra cá.” Até encontrar uma que me indicou o Carlão, o que fica na “banca logo depois das moedas.”

E logo após a banca das moedas, me deparo um senhor gordinho, de gorro na cabeça, esparramado numa cadeira dessas de praia, com cara de rabugento e que abriu um grande e largo sorriso debochado quando perguntei: “o senhor, por acaso tem fotos antigas?”; debochado, pois, sorri e aponta para a as enormes mesas recheadas de postais e fotos e álbuns e caixas e….

Devo ter ficado quase uma hora debruçado sobre o material. Ele tinha (tem) uma coleção invejável e sensacional. Foi ali que consegui as duas estereografias do início do século passado. Gaivotas perto de Gibraltar e o trono do Palácio Imperial Chinês.

Eu fiquei muito tentado a gastar uma nota lá, mas me contive. Haviam outras estereografias sensacionais. Uma delas do Porto de Santos, cujo preço era bem mais salgado em comparação às que comprei: 120 reais. Essas que levei saíram a 15, cada.

Logo quando cheguei, perguntei sobre preços e ele: “rapaz, você entende de fotografia? sabe porque essa fotografia tem essa cor?”, digo que não e ele arremata: “é um daguerreótipo, filho! cada foto aqui tem um preço, precisa ver o contexto, o que está retratado na imagem, a época…”… No momento eu olhava uma pilha de pequenos cartões, no formato de um cartão de visita, com ornamentos em baixo relevo, alguns prateados, outros dourados, com os nomes dos fotógrafos e estúdios, muitos deles do centro de São Paulo. Eram peças lindíssimas, fotos idem, caras demais para os meus recursos: algumas chegavam a 200 reais.

Ficamos um bom tempo conversando, ele falava sobre a importância da fotografia no século passado, mostrava algumas impressões de Marc Ferrez, um álbum do Rio de Janeiro em fins de 1940, com anotações do então prefeito da cidade, Mendes de Morais; postais pornôs franceses, que pareciam ser de meados do século 20 – perguntei a data mas ele não soube especificar.

Pretendo voltar à banca do Carlão em breve. Brinquei ao sair dizendo que voltaria, e aos poucos compraria todo o seu acervo. Ele sorriu, desta vez com um ar menos debochado do que quando eu cheguei.

*Dia 11 de julho.