Almoço em Pinheiros, livros, jornalismo, direitos trabalhistas, xenofobia

Costumo almoçar aqui em Pinheiros em dois lugares. Um deles é o Cantinho da Vó, quase esquina da Cunha Gago com a Teodoro. O outro lugar, descubro o nome agora, é o Kamki e fica na Artur de Azevedo, esquina com Pedroso de Morais. Costumo comer mais na Vó que no Fumaça, ou Amarelinho, que é como costumamos chamar o Kamki, mas as vezes prefiro dar uma pernada mais longa durante o almoço. São bons restaurantes por quilo. Comida boa, fresca, com uma grande variedade de saladas e pratos quentes, além dos preços serem bem em conta. Recomendo-os.

Na última quinta-feira fui comer no Fumaça. Lá eles tem uma coisa legal que é aquele projeto “Semeadores de Livros”. Bem na entrada há uma caixa com alguns exemplares para doação. Devo ter pegado uns três já e pretendo deixar alguns essa semana. Dessa última vez peguei um chamado “Cabeça de Turco”, do jornalista alemão Günter Wallraff, publicado em 1985 e lançado no Brasil em 88, pela editora Globo, com prefácio de Willian Waack. Há uma edição mais recente, de 2004, também pela Globo, cujo lançamento contou com a presença de Wallraff em São Paulo.

Nas últimas semanas tenho me interessado bastante por livros-reportagem/jornalismo. Tenho lido “O Reino e o Poder”, de Gay Talese sobre o New York Times, e ontem terminei “Cem Quilos de Ouro”, um belo compilado de reportagens do Fernando Morais. Hoje, li as últimas páginas de “Cabeça de Turco”.

Wallräf, conta a orelha do livro “pretendia escrever sobre a situação de milhões de estrangeiros – em especial turcos, iugoslavos, gregos, espanhóis – que vivem na Alemanha. Então assumiu aparência de turco, provavelmente o ser humano que ocupa o lugar mais baixo na escala de valores da sociedade alemã contemporânea. Após intenso treinamento para falar alemão como um turco, Wallraff completou seu disfarce com lentes de contato escuras, peruca de cabelos pretos, bigodes, documento falso […] o resultado é um documento inesquecível de que demonstra até que ponto podem chegar a incompreensão, a distância e o desprezo de um homem pelo seu semelhante.” A contra capa segue com uma sinopse e imagens de Günter, agora Ali Sinirlioglu.

“Estrangeiro forte procura emprego. Pode ser trabalho pesado, sujo e mal pago.”

Foi publicando este anúncio em diversos jornais da Alemanha que Ali foi em busca de emprego. Fez alguns biscates, trabalhou na rua como tocador de realejo e se embrenhou em alguns círculos alemães – partidas de futebol, lançamento de livro de um membro da União Social Cristã, partido de direita na época – para começar a sentir na pele o que um estrangeiro sentia. No jogo entre Alemanha Ocidental e Turquia, Ali se sentiu tão ameaçado com as ofensas dos torcedores alemães aos turcos que deixou de lado o o personagem e voltou a ser Günter.

Encontra moradia em um porão de um bairro pobre. Tem um curto período de trabalho no McDonalds. Jornadas intermináveis, humilhações e salário ridículo. A partir daí ele começa a buscar trabalhos em canteiros de obras e siderurgia, onde os piores, mais sujos e arriscados trabalhos são entregues a imigrantes, ilegais ou não, alguns fugindo da ditadura militar turca.

É nesse ponto do livro que tem-se a impressão de que ele foi escrito hoje. Grande parte desses trabalhos, em empresas alemãs como Thyssen, Mannesman, Krupp etc, eram colocadas sob a responsabilidade de empresas terceirizadas que contratavam imigrantes (turcos, eslavos, poloneses…) por salários baixíssimos. Alguns funcionários chegavam a fazer turnos de 36 horas, em trabalhos pesados, expostos a substâncias químicas nocivas. Além de toda a desgraça enfrentada pelos homens para conseguir trabalhos, tinham que lidar ainda com o comportamento xenófobo dos alemães.

Além das questões trabalhistas, atuais como nunca, há também outras passagens do livro, com alemães reclamando dos tempos atuais, da insegurança, com falas do tipo: “Aquela época é que era boa. Era uma ditadura, mas pelo menos as pessoas andavam na rua com segurança”, e várias outras que poderiam facilmente ser encontradas numa caixa de comentários de portal.

Me lembro agora de julho de 2012, acredito que a primeira semana em que eu estava em SP. Voltando da padaria com Luiza, perto de onde morávamos, na zona sul, fomos abordados por um cara de uns 40 e poucos anos. Ele pediu licença e começou a contar sua história. Veio pra SP para trabalhar na construção civil, trabalhou e o sub-empreiteiro responsável pela contratação dos funcionários sumiu com o dinheiro de todos, após dois meses de trabalho. Ele não nos pediu dinheiro. Pedia trabalho, pra conseguir comprar a passagem de volta pra casa, em alguma cidade nordestina que não me lembro o nome. “Faço qualquer trabalho”, dizia. Eu não tinha trabalho pra lhe dar e ao sacar 20 reais ele recusou, chorou, não queria o dinheiro, queria trabalho. Eu insisti. Ele aceita e segue, profundamente envergonhado.

A história que ele me contou, sobre ele, pode muito bem não ser verdade, eu sei, mas essa mesma história, sobre outros, essas sim, aconteceram, e muito.

Recomendo o livro.

Recomendo o almoço na Vó e no Amarelinho/Fumaça/Kamki.